Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho




               ACONTECEU
      PELO ESPRITO ANTNIO CARLOS
                                           Psicografia de Vera Lcia Marinzeck de Carvalho


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                                Vera Lcia M. de Carvalho

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- Deficiente Mental: Por que Fui Uno?

       Era do meu desejo dedicar esta obra aos meus amigos Ao vir a minha mente a
imagem deles, vi com alegria serem muitos. Tantos que a lista seria imensa. E eu os amo,
quero-os de corao. Graas a Deus, tenho muitos amigos, desencarnados e encarnados.
       E deles me valho em perodos difceis, e nunca me tm faltado o calor de sua
amizade e auxlio.
       Assim, a todos aqueles que so recprocos ao meu carinho, quero com ternura
dedicar este livro.
       Com muito amor
       Vera

       ndice
       A encarnao anterior de Taciana
       O Sinal de Nascena
       Quem me matou?
       O Rapto
       O Pacto
       A Vingana
       O casamento
       O Engano
       O Afogado
       Ajudando uma famlia
       Aprendendo a servir


                        A ENCARNAO ANTERIOR DE TACIANA

       Taciana estava com dezessete anos e cursava o segundo ano do segundo grau.
Estudava pela manh e,  tarde, fazia todo o servio de sua casa, porque a me, para ajudar
nas despesas domsticas, trabalhava como diarista. Morava numa casa pequena e simples
num bairro residencial. Eram pobres. Taciana, como quase todos os jovens, sonhava em ter
objetos caros, como boas roupas, e estudar em colgio particular. Era mais sonhadora do
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

que interesseira. Possua estatura mdia, cabelos e olhos castanhos, destacando o sorriso
cativante e agradvel.
        Namorava Daniel, um rapaz que residia perto de sua casa. Ele tambm era pobre,
estava com dezenove anos e cursava o terceiro ano do segundo grau  noite.
        Trabalhava como vendedor numa loja de sapatos. Durante o dia, ainda fazia o
servio militar, o Tiro de Guerra. Honesto e trabalhador, Daniel gostava muito de Taciana.
Porm no sobrava tempo para namorar, que era motivo de muitas queixas da jovem.
        - Taciana - disse sua me -, o aougue da avenida mudou de dono, v l e compre
carne mais barata.
        Taciana no gostava de fazer compras para casa, mas foi. Conheceu, ento, o filho
do dono do aougue, Alosio, que a atendeu gentilmente e se encantou com ela. Taciana
percebeu o interesse dele e o incentivou. Alosio tinha vinte e trs anos, trabalhava com o
pai, que tinha outros aougues.
        Era alto, forte e um tanto gordo.
        Taciana pela primeira vez no se aborreceu em ir fazer compras e comeou a passar
muitas vezes na frente do aougue. Sentiu satisfao com a ateno de um rapaz mais velho
e bem de situao financeira. Durante a semana voltou mais vezes ao aougue, conversou
com Alosio e aceitou encontrar-se com ele  noite, na praa ali perto Taciana foi ao
encontro toda enfeitada e contente. Alosio era educado, de conversa agradvel e sentiu-se
atrado por ela. Encontraram-se vrias vezes. Taciana escondeu de Alosio que tinha um
namorado.
        Ela sentia que gostava de Daniel, porm Alosio lhe pareceu uma aventura
interessante.
        Tambm se sentiu atrada por ele.
        Daniel soube dos encontros de Taciana com Alosio e lhe pediu satisfao.
        - Daniel - falou a mocinha -, s tenho conversado com Alosio, no o estou
namorando. Voc  o culpado, quase no o vejo, no samos e nem parece que namoramos.
        - A queixa de sempre - respondeu Daniel. - Voc sabe que necessito estudar e
trabalhar.
        Fao isso por voc, para que nosso futuro possa ser melhor. No  certo voc
conversar com outro, na praa.
        - Daniel, quero terminar o namoro e ser livre para falar com quem eu quiser.
        Discutiram por minutos e terminaram o namoro.
        Daniel ficou muito triste, entretanto tinha esperanas de reatar logo o
relacionamento.
        Taciana sentiu-se livre.
        No outro dia, Alosio pediu  Taciana que o encontrasse na praa s vinte horas. A
garota prometeu ir realmente antes das vinte horas l estava ela esperando por ele. Alosio
chegou, sentou-se e disse:
        - Taciana, hoje atrasamos nosso trabalho no aougue. Tenho ainda que fechar o
estabelecimento e acertar o caixa. Vim avis-la que voltarei ao aougue, mas no demoro;
fecho e venho para conversarmos. Vai me esperar?
        - Espero sim, fico aqui.
        Taciana esperou por quase vinte minutos. Como Alosio no voltasse, resolveu ir
encontrar-se com ele. O aougue ficava perto, a um quarteiro da praa. Achou a porta
aberta, empurrou-a, no viu ningum, estranhou e resolveu entrar.
        - Alosio! Alosio! - chamou baixo.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Ningum respondeu. Deu mais uns passos devagar, passou pelo balco e viu Alosio
cado numa poa de sangue, com uma faca enfiada no peito. Entrou em pnico e, querendo
ajudar sem saber como, tirou a faca, limpou o sangue na prpria roupa e depois gritou
desesperadamente.
        Logo o aougue ficou cheio de gente. A polcia foi chamada e Taciana continuou a
gritar at que desmaiou. A polcia levou-a para um hospital, onde s foi acalmada com
medicao para dormir, porque voltou do desmaio gritando desesperada.
        A polcia e a famlia de Alosio tinham certeza de que Taciana cometera o crime.
Falaram de tudo. Que Alosio tentou agarrar Taciana e esta defendeu-se. Que brigaram.
Que Taciana o matou num ataque de loucura.
        Taciana, no hospital, dormiu por vrios dias. At que finalmente acordou, observou
curiosa onde estava, olhou as pessoas e percebeu que ao lado do seu leito havia outro,
ocupado por uma senhora que a observava.
        - No vai gritar? - indagou a mulher.
        - Eu?! - disse Taciana espantada.
        - Sim, voc acorda e grita, a lhe do uma injeo e voc dorme de novo. Como se
chama?
        - Maria do Carmo.
        - Ora, me falaram que voc se chama Taciana.
        - No, meu nome  Maria do Carmo. No conheo ningum chamada Taciana -
falou convicta.
        Acordou tranqila, serena e disposta. Logo a enfermeira veio atend-la.
        Estranhou o comportamento da paciente tambm o fato de ela dizer que se chamava
Maria do Carmo.
        Comunicou o fato ao mdico de planto, que logo veio v-la.
        - Caso de dupla personalidade - diagnosticou. - No  nossa especialidade. Melhor
que faa um tratamento especializado. Vamos mand-la para um Sanatrio.
        A famlia de Taciana ficou desesperada com acontecimento. Os pais foram visit-la,
mas ela no os reconheceu e, com a ajuda do patro do pai de Taciana removeram-na para
um Sanatrio. Taciana foi tranqila falava pouco, s insistia que se chamava Maria do
Carmo.
        A famlia de Alosio no acreditou na possvel doena de Taciana e pressionou a
polcia. Um delegado foi visit-la e estranhou o seu comportamento. A Justia determinou
que Taciana no poderia sair de l sem autorizao. No Sanatrio, quem passou a cuidar de
Taciana foi Dr. Cassiano, que lhe receitou muitos remdios.
        No dia de visita, seus pais foram v-la e Daniel o acompanhou. Para surpresa de
todos, Taciana reconheceu o moo, porm o chamou de modo diferente.
        - Mrio Luiz! Que bom v-lo! Que roupas estranhas so essas? Est engraado!
        Daniel no soube o que responder e preferiu indagar.
        - Como est voc? Est bem?
        - No sei, dizem que estou doente e num Sanatrio. (que  Sanatrio?) Nunca ouvi
falar.
        -  um lugar onde os doentes so curados.
        - Que tenho?
        - No sei.
        Daniel inquietou-se e demonstrou que j ia embora Taciana tentou segur-lo.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        - Mrio Luiz, no v! No conheo ningum neste lugar. Voc  a primeira pessoa
conhecida que vejo aqui.
        Sinto-me to sozinha!
        - Tenho que ir! At logo! Volto em outro dia.
        - Promete voltar?
        - Voltarei.
        Daniel saiu. A me de Taciana sofreu muito vendo a filha naquele estado e foi
embora chorando. Taciana, porm, continuou tranqila.
        O Sanatrio em que Taciana estava internada, era dirigido por um grupo Esprita,
que se reunia no salo de visitas do Sanatrio, duas vezes por semana, para preces, estudo
do Evangelho e passes. Os enfermos que quisessem participar, iam at o salo. Porm todos
ali eram beneficiados com os trabalhos do grupo. Dr. Cassiano era de famlia Esprita e
dizia ser Esprita, porm tinha muitas dvidas. Ele e os dirigentes da casa se davam bem.
        Era amoroso com os pacientes e estes gostavam muito dele.
        Amava o que fazia.
        Examinou Taciana e atestou que ela no estava fingindo e que necessitava ficar
internada.
        Daniel no se conformou em ver Taciana confusa daquele jeito. "Ela me chamou de
Mrio Luiz como se este fosse realmente meu nome. Que teria acontecido com ela?"
        A av de Daniel, Dona Helosa, era Esprita. Freqentava um Centro Esprita, era
mdium e passista. Daniel gostava do Espiritismo, mas no freqentava nenhum Centro por
falta de tempo. "Acho que vov poder nos ajudar" - pensou. Procurou a av e contou-lhe
todo o problema, finalizando:
        - Vov, por favor, tente ajudar Taciana, seno ou ela fica louca de vez ou vai para a
priso. Conheo-a muito bem, ela no est fingindo como julga a famlia de Alosio.
        Dizem eles que ela inventou chamar-se Maria do Carmo para se inocentar. Mas,
vov, ela fala com muita certeza que se chama Maria do Carmo. Sinto que ela inocente!
        Dona Helosa pediu ajuda aos trabalhadores espirituais do Centro Esprita. Um
amigo meu desencarnado Paulino, foi encarregado de ajudar Taciana. Ao ver-se diante de
um caso raro e um tanto complicado, lembrou-se de mim e me procurou.
        - Antnio Carlos, Taciana e Maria do Carmo so um enigma. Gostaria que o amigo
me ajudasse no caso.
        Trocamos idias, interessei-me e foi um prazer unir-me a Paulino para tentarmos
desvendar o mistrio. Ao examinar Taciana, conclui:
        - Paulino, esta menina, pelo choque que sofreu, esqueceu-se de sua existncia atual
e mergulhou no passado, em que se chamava Maria do Carmo, e quando conheceu Daniel
como Mrio Luiz.
        - Isto  possvel? Voc quer dizer que, para ela, Taciana nunca existiu e que ela 
Maria do Carmo, personagem da encarnao passada?
        -  isso mesmo, meu amigo. Pelo choque, ela recordou a encarnao passada e pelo
medo, pelo pavor que teve, refugiou-se nessas lembranas e assumiu a personalidade
anterior.
        No sabia ser isto possvel! - exclamou Paulino.
        -  um fato raro, mas acontece - respondi. - Aconteceu com Taciana, porm muitas
pessoas levam sustos traumas maiores e este fato no ocorre.
        - Os mdicos encarnados dizem ser um caso de dupla personalidade.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

         - No esto errados. A mocinha  Taciana e, pela suas recordaes,  tambm Maria
do Carmo. Paulino, nem todos os casos parecidos com o de Taciana so recordaes do
passado.
         Fatos assim podem suceder por vrios motivos: - Um deles  a recordao do
passado.
         - No resta dvida - respondi. - A recordao indevida do passado pode ocasionar
danos. A de Taciana no foi espontnea e nem porque ela quis. Aconteceu pelo choque, e
talvez por ter ocorrido no passado algum fato parecido que lhe marcou muito. Percebo
tambm que Taciana no recordou todo o seu passado, mas s que se chama Maria do
Carmo. Lembrou-se tambm de Daniel, ao v-lo, mas no sabe bem quem  ele, s que o
quer muito bem.
         - Antnio Carlos, que pensa fazer?
         - Levar o mdico encarnado, Dr. Cassiano, a cur-la.
         A primeira providncia foi Paulino incorporar-se, em uma reunio no Centro
Esprita que Dona Helosa, a av de Daniel, freqentava e conversar com ela explicando a
situao.
         - Ento - repetiu Dona Helosa -, devo transmitir ao meu neto Daniel o que me
disse, e pedir-lhe que converse com o mdico que cuida de Taciana. Que coisa incrvel!
Esquecer-se desta existncia e s lembrar-se da outra.
         - Incrvel ou no, foi o que aconteceu.  melhor para Taciana no tomar remdios
fortes e no pensar que est louca. Tambm deve comear logo o tratamento que necessita.
         - Acredito no que disse este esprito, vov - falou Daniel. - Acho que foi isso
mesmo o que aconteceu. O difcil ser conseguir falar com o mdico e ele acreditar no que
irei lhe contar.
         Fomos com Daniel ao Sanatrio, no sbado  tarde. Ele insistiu, pediu, mas no
conseguiu falar com Dr. Cassiano. O moo, porm, no desistiu e voltou no domingo 
tarde. Era dia de visita e o Sanatrio estava lotado. Daniel ficou na sala de espera.
         Paulino pediu mentalmente  secretria e, para nosso alvio, a moa falou com
Daniel.
         - Como voc  insistente, O doutor no tem tempo para conversar com
desconhecidos. Mas vou ajud-lo, pelo menos vou dizer a ele que voc est aqui.
         - No se esquea de falar que  importante, por favor. L fomos, Paulino e eu, com
a secretria. Paulino pediu mentalmente para o Dr. Cassiano atender nosso amigo.
         Podemos pedir mentalmente, e algumas pessoas sentem nossos pensamentos como
idias ou vontade. Porm nem todas recebem ou captam; mas de qualquer forma tm o
livre-arbtrio para atender ou no. Para a nossa alegria, Dr. Cassiano respondeu:
         - Tenho alguns minutos de folga. Deixe o rapaz entrar.
         Daniel entrou na sala um tanto encabulado. Demos-lhe coragem e ele falou rpido.
         - Dr. Cassiano, desculpe-me incomod-lo, mas  importante.  sobre a paciente
Taciana, que diz se chamar Maria do Carmo. Minha av  Esprita, e l no Centro que
freqenta, um protetor, esprito amigo, disse que Taciana foi na encarnao passada Maria
do Carmo e que o susto que levou, fez com que recordasse e se refugiasse no passado.
         - Ele tambm recomendou como devo trat-la? - indagou o mdico, mais por
brincadeira.'
         - Sim,  para o senhor conversar com ela e faz-la recordar-se do seu passado,
ajudando-a a voltar ao presente. Enfrentando o problema, ela ir se curar.
         - Ela pode ser uma assassina!
Aconteceu                                                       pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

        - No acredito!
        - Tenho que ir atender uma paciente - falou o Dr. Cassiano, despedindo-se.  Vou
estudar o caso de Taciana com todo cuidado, como fao com todos os pacientes deste
hospital.

- Dr. Cassiano, mesmo se dizendo Esprita, ainda no tinha plenos conhecimentos dos
ensinamentos da Doutrina; da a sua incredulidade sobre a informao. (Nota do Autor Espiritual)

        Daniel deu-se por satisfeito. Dr. Cassiano duvidou e pensou: "Cada uma que
acontece; recado de um abelhudo desencarnado..."
        Porm sabia ser possvel e ficou a pensar no assunto. Paulino e eu tudo fizemos para
que ele refletisse em tudo o que Daniel lhe falara.
        Naquela noite, esperamos Dr. Cassiano adormecer, provocamos seu afastamento do
corpo e lhe falamos explicando o que ocorria com Taciana, e pedimos que colaborasse
conosco. O mdico acordou e no se recordou, mas ficou com uma vaga idia e resolveu
logo pela manh, quando chegou ao Sanatrio, examinar novamente Taciana.
        Fisicamente a garota estava bem e, curioso, o mdico resolveu indagar:
        - Como se chama?
        - Maria do Carmo.
        - Onde mora?
        - Na fazenda Santa Maria.
        - Quantos anos tem?
        - Vinte e trs.
        - Voc se lembra do ltimo Natal? Como foi?
        Taciana falava calmamente, prestava ateno nas perguntas e respondia tranqila.
Ao descrever o Natal, o ltimo que passou, Dr. Cassiano compreendeu que era a cena de
um Natal do sculo passado. As respostas da garota o intrigaram. "De fato" - pensou -' "o
choque pode ter levado esta jovem a recordar-se e, conseqentemente, a pensar que vive na
encarnao que teve anteriormente. Talvez a esteja a comprovao de que realmente existe
a reencarnao."
        Dr. Cassiano marcou um horrio quase que dirio para conversar com ela e
suspendeu as medicaes, deixando somente um calmante suave  noite. Com isso Taciana
melhorou, j no se sentia to prostrada e passou a dormir normalmente. Passeava pelo
ptio e pelo Sanatrio.
        Dr. Cassiano deixou um recado na portaria do Sanatrio: se Daniel voltasse ali era
para lev-lo at ele.
        No domingo seguinte, Daniel foi visitar Taciana, encontrou-se com Dr Cassiano e
combinou com ele contar-lhe tudo o que descobrisse sobre Taciana. Ao visitar a ex-
namorada, Taciana e tratou com carinho e ele descobriu que ela o tinha amado na
encarnao anterior.
        - Mrio Luiz - pediu ela a Daniel. - No me chame de Taciana. Por que me tratam
assim? No gosta do meu nome?
        - Gosto. Vou cham-la s de Maria do Carmo.
        As entrevistas entre o Dr. Cassiano e Taciana ficaram cada vez mais interessantes.
Paulino e eu insistamos, e muitas vezes tentamos intuir os dois, ajudando sempre a jovem.
Taciana aos poucos ia recordando sua outra existncia.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

         Tinha sido filha de um colono de uma fazenda. Amava um jovem, de nome Mrio
Luiz, tambm colono. O dono da fazenda, Ablio, era casado e morava com a esposa e
filhos em outra propriedade. Encantou-se com Maria do Carmo e a desejou. Ela no o
queria e teve medo dele. Ele chantageou o pai dela que, por motivo de doena da esposa,
devia-lhe dinheiro. Ablio pressionou o pai da moa, dizendo que, se Maria do Carmo no
fosse morar na casa-grande como sua amante, ele o mandaria para a priso e colocaria sua
famlia fora da fazenda. Todos ficaram apavorados. Maria do Carmo se sacrificou,
despediu-se de Mrio Luiz, que prometeu ser seu amigo, e foi morar na casa sede da
fazenda. Ablio tratou-a bem, com carinho, presenteou-a com roupas e jias. Desfrutava de
uma vida sossegada, era tratada como patroa e teve dois filhos. Ablio ia sempre  fazenda,
porm com o tempo as visitas foram escasseando e Maria do Carmo sentiu-se sozinha.
         Nunca deixou de amar Mrio Luiz e este a ela. Acabaram se aproximando e
tornaram-se amantes. Mas o segredo dos apaixonados chegou at Ablio, que um dia
retornou  fazenda de surpresa.
         " Ablio, chegou sem avisar, o que ser que aconteceu?"
         Taciana se assustou e parou de narrar. Dr. Cassiano insistiu.
         - O que Ablio lhe disse? Recorde, Maria do Carmo!
         - Ele me xingou, fiquei com muito medo. Descobriu meus encontros com Mrio
Luiz.
         Entrou no meu quarto e me olhou com dio. A faca! No! A faca no!
         Taciana gritou desesperada. Dr. Cassiano tentou acalm-la, mas insistiu para que
recordasse.
         - Que ele fez com a faca?
         - Enfiou-a no meu peito!
         Dr. Cassiano aplicou em Taciana uma injeo forte e ela adormeceu. O mdico
deixou ordem para que quando acordasse a levassem at ele. Taciana dormiu por horas e,
quando acordou, foi levada por uma enfermeira at o Dr. Cassiano. Quando ela viu o
mdico, implorou:
         - Dr. Cassiano, ajude-me, estou confusa. Morri ou no morri? Vi e senti a facada.
Mas no tenho nem sinal e nem marca. Que acontece comigo?
         Taciana chorou e Dr. Cassiano a consolou.
         - Minha filha, acalme-se. Vamos continuar a recordar. Acabar por compreender
tudo. No se afobe! Aqui est segura, no tenha medo. Vamos continuar. Ablio entra no
seu quarto, ofende-a e a fere com uma faca. E depois? Vamos lembrar!
         - Sou duas. Sim, estou ali em p olhando Ablio que ainda me xinga, e a outra est
deitada entre a cama e um mvel. Tenho os olhos abertos e estou toda suja de sangue. Estou
apavorada. Ablio sempre maldizendo chamou dois capangas, que saem da casa e eu os
sigo.. Vo atrs de Mrio Luiz, e o encontram no campo. Amarram-no com uma corda e ele
 puxado por um cavalo pela fazenda. Deixam-no muito machucado e, depois de algum
tempo, fica como eu, em dois. Escuto algum dizer: "Ele morreu!". Fico olhando tudo. Os
dois corpos so velados por poucas horas e enterrados. Estava com vinte e trs anos. Meus
dois filhos foram para a casa dos meus pais e Ablio falou ao meu pai que ia sustent-los.
         Nada aconteceu com Ablio pelo duplo assassinato. Disseram que foi em defesa da
honra. Mas nem esposa dele eu era. Nossos pais choraram, mas acabaram se conformando.
         Confusa, choro. Vejo um senhor, um homem idoso que me oferece ajuda. Aceito e
ele me leva para um lugar agradvel, onde sou bem tratada; gosto de l.  bonito!  um
Posto de Socorro, um lugar onde so abrigados e socorridos os necessitados.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

         Taciana calou-se. Dr. Cassiano compreende que Maria do Carmo desencarnou,
vagou e depois foi levada para um socorro, num Posto de Auxlio, que era um local fraterno
de ajuda ao prximo. Taciana ficou pensativa at o prximo encontro com Dr. Cassiano.
Este, intudo por ns, trouxe para a garota alguns livros Espritas.
         - Que aconteceu comigo, Dr. Cassiano? - indagou Taciana preocupada.
         - Lembro-me que morri, ou, como me ensinaram nesse local em que estava, que
desencarnei. No era este meu corpo. Quando morta, ou desencarnada, meu corpo era
diferente, era perispiritual.
         Estou inventando tudo isto?
         - Maria do Carmo, somos espritos eternos que vivemos ora no corpo fsico, ora
desencarnados com o corpo perispiritual. Voc no inventa nada. Na encarnao anterior
foi Maria do Carmo e tudo o que recordou, aconteceu. Mas por hoje chega! Trouxe-lhe
estes livros. So muito bons e falam sobre esse assunto: encarnao, desencarnao e
reencarnao. Voc vai gostar deles.
         Taciana foi para o quarto, ou seja, para a enfermaria feminina. Acariciou os livros
com carinho. Eram eles O Evangelho Segundo o Espiritismo e O Livro dos Espritos,
ambos de Allan Kardec. Comeou a l-los em seguida. As partes que falavam sobre
reencarnao, leu-as muitas vezes. Ficou ansiosa para conversar com Dr. Cassiano e,
quando o encontrou, falou contente:
         - Dr. Cassiano, o que aconteceu comigo foi que recordei minha encarnao anterior.
No estou louca!
         - Nunca esteve, minha filha, s um pouco confusa. Mas ainda tem muito para
recordar. Vamos continuar nosso trabalho. Concentre-se. Voc est num lugar agradvel e
bonito, gosta de l. Voc v Mrio Luiz?
         Dr. Cassiano acabou por se acostumar a chamar Taciana de minha filha, porque ela
insistia que se chamava Maria do Carmo e, no querendo desagrad-la, optou por esse
termo carinhoso. Com a pergunta do mdico, Taciana ficou pensativa e depois respondeu:
         - Sim, encontrei Mrio Luiz. Ele  bom, perdoou e ajudou Ablio, que logo depois
foi assassinado com um tiro, bem longe da fazenda em que morvamos. Ablio sofreu
muito, eu no quis v-lo, mas Mrio Luiz o ajudou. Depois ele foi trazido para o Posto de
Socorro, e acabamos fazendo as pazes. Mrio Luiz me dizia: "Maria do Carmo, ns
tambm erramos. Voc deveria ter vivido como esposa de Ablio, aceitando e se
conformando com a situao. Eu no deveria ter me aproximado de voc. Precisamos
perdoar, para merecer o perdo de Deus". Depois...
         Taciana parou de falar e Dr. Cassiano insistiu.
         - Depois? Fale minha filha.
         - Preparei-me para reencarnar. Agora sou Taciana! Por isso  que todos me chamam
de Taciana. Chamo-me Taciana!
         - Sim, voc agora  Taciana - falou Dr. Cassiano. - Comeou a interrog-la. Onde
mora? Quando nasceu? Que faz? Quem so seus amigos? E Taciana foi recordando.
         - Meu Deus! - exclamou. - Daniel  Mrio Luiz!
         Em outra conversa ela lembrou-se de Alosio.
         - Dr. Cassiano, Alosio era Ablio! Taciana falou com medo.
         - Que tem isto? Acha ruim?
         - No sei!
         Dr. Cassiano parou por a. Mas ficou a pensar: "Taciana deve ter se confundido,
quando entrou no aougue. Se Alosio era Ablio, ela ficou com medo de ele mat-la. No
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

aougue h facas. Talvez o moo a ameaasse. E ento o matou. Coitada desta menina! Que
fazer para ajud-la?"
        A famlia de Alosio pressionou a polcia para que Taciana fosse levada para um
Manicmio judicirio. Dr Cassiano tudo fez para impedir, e conseguiu que prevalecesse sua
vontade. Embora convencido de que fora Taciana que matara o rapaz, entendeu os motivos.
Mas a justia dos homens entenderia?
        Daniel ficou a par dos acontecimentos. Tornou-se amigo do Dr. Cassiano.
Conversavam e trocavam idias, quando ia ao Sanatrio.
        Taciana falou a Daniel de suas recordaes. Ele no recordou nada, mas sentiu que
tudo o que ela falou era verdadeiro. Daniel e Taciana reconciliaram o namoro.
        - Amo voc, Daniel! Amei-o como Mrio Luiz e o amo agora.
        - Eu tambm a amo!
        Com todos esses acontecimentos Daniel se interessou pelo Espiritismo. Taciana
tambm passou a ir s sesses do Sanatrio e a ler livros Espritas. Daniel procurou ir com
freqncia ao Centro Esprita que a av freqentava. Numa dessas idas, Paulino
incorporou-se e falou com Daniel.
        - Daniel, Taciana no matou Alosio. Diga isso ao Dr. Cassiano.
        Dr. Cassiano acreditou no recado, sentiu-se at aliviado. Torcia para que Taciana
no fosse a assassina. Insistiu com ela para que recordasse tudo.
        - Taciana, recorde! Voc encontra a porta do aougue encostada, entra. O que v?
        - Ai! Socorro! - gritou Taciana. Vejo Alosio cado com a faca no peito. Quero
ajudar, no sei como. Abaixo e tiro a faca, que est suja de sangue. Grito, grito!
        - Quem matou Alosio? Voc viu? Foi voc?
        - No sei quem o matou. Serei eu? Fui eu? Meu Deus! Ser que matei Alosio
pensando que era Ablio? Ser que fui eu? No me lembro!
        Chorou desconsolada.
        - No foi voc! No foi! - falou Dr. Cassiano, com certeza pensando no recado que
recebera. - Voc entrou e o viu cado, morto. Vamos recordar.
        Taciana com medo se recusou. Mas no outro dia, ela recorda tudo.
        - No matei Alosio. Encontrei-o morto. Dr. Cassiano, estou com medo, ser que foi
Daniel? Terminei o namoro com ele para encontrar-me com Alosio. Ser que foi ele?
        Dr. Cassiano no respondeu. Para ele, Daniel era um bom moo, mas no
descartava a hiptese. Por cimes tantos crimes so cometidos. Ainda mais estando
vinculados por rancores de outra encarnao.
        Taciana quis ir para casa.
        - Dr. Cassiano, estou bem. Sinto-me bem. Quero ir para casa.
        - Por enquanto, no, Taciana. Voc  acusada de assassinar Alosio.
        - Eu?! Mas no o matei!
        - Sabemos disto, mas a polcia, no. Ningum viu nada de suspeito, s voc entrou
no aougue. Encontraram-na gritando, suja de sangue e Alosio, morto. So muitas as
provas contra voc, Aqui est protegida.
        - Tenho medo. No quero ser acusada por um crime que no cometi.
        Daniel entristecia e pensava: "Alosio  culpado de tudo, fez com que sofrssemos
na encarnao anterior e ainda faz nesta. No gostei da pergunta que Taciana me fez: 'Voc
matou Alosio?' Duvidou de mim. Somos inocentes. Ela est sendo acusada e eu poderei ser
tambm. Ainda mais que naquele dia faltei  aula para vigiar Taciana, e depois de v-los na
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

praa fui para casa. Mas acreditaro? Se a suspeita for levantada, as pessoas lembraro que
me viram na praa."
        Foi ento que sentiu, pela primeira vez nesta encarnao, raiva de algum, de
Alosio e de seu assassino, que ningum sabia quem era. Para se distrair, pegou O
Evangelho Segundo o Espiritismo e abriu ao acaso. Ou penso que fora ao acaso. Paulino,
que j tinha preparado a lio que o ajudaria no momento, fez com que abrisse no captulo
XII, na mensagem escrita por Adolfo.
        "S  verdadeiramente grande aquele que, considerando a vida como uma viagem
que tem um destino certo, no se incomoda com as asperezas do caminho, no se deixa
desviar nem por um instante da rota certa. De olhos fixos no seu objetivo, pouco se importa
que os obstculos e os espinhos da senda o ameacem; estes apenas o roam, sem o ferirem,
e no o impedem de avanar. Arriscar os dias para vingar uma ofensa  recuar diante das
provas da vida;  sempre um crime aos olhos de Deus; e, se no estivsseis to
***enlevados como estais, nos vossos preconceitos, seria tambm uma ridcula e suprema
loucura aos olhos dos homens".
        "Que bonita lio de Amor" - pensou Daniel. - "Se perder tempo com rancores
estarei desperdiando-o. No quero ter raiva. Perdoei Alosio no passado e o perdo de
novo, como tambm quem o matou e nos colocou nesta situao".
        Orou para Alosio e sentiu paz.
        Mas, enquanto aconteciam esses fatos narrados, Paulino e eu entramos em ao para
descobrir os assassinos de Alosio, porque certamente no fora Taciana, mas poderia ter
sido Daniel?
        Fomos ao local do crime, o aougue, que estava fechado, e pela Psicometria
pudemos ler o que aconteceu naquele dia.
        Psicometria  a leitura da memria de objetos, de coisas ou de lugares. Os objetos
possuem a virtude de receber e conservar fludos vitais de acontecimentos vividos de fatos
marcantes. Pela concentrao de quem sabe faz-lo, obtm-se bons resultados. Entretanto
so informaes do prprio ter ***emanante no objeto, e no da matria que o constitui. A
Psicometria  mais fcil para os desencarnados, mas muitos encarnados podem fazer uso
dela, desde que aprendam. Desencarnados tambm precisam aprender e treinar.
Psicometria, ento,  a leitura dos acontecimentos que registram a histria na matria.
        Assim, Paulino e eu vimos atravs do sistema vibratrio os acontecimentos que se
passaram ali, no aougue.
        Concentramo-nos nos que nos interessavam, ou seja, na desencarnao de Alosio.
        Alosio chegou ao aougue, despediu-se do empregado, que foi logo embora.
        Deixou a porta encostada, abriu a gaveta do dinheiro e comeou a cont-lo. Dois
adolescentes, sendo um menor de idade, entraram e o surpreenderam. Ele tentou reagir, e
um dos assaltantes pegou uma faca em cima do balco e a enfiou no peito dele, que
desencarnou na hora.
        Fugiram apavorados e nem levaram o dinheiro. Logo depois, Taciana o encontrou
Alosio desencarnou e foi socorrido pela sua bisav que o levou para um Posto de Socorro.
        Estava em tratamento. Paulino at pensou que Alosio pudesse vir ditar uma
mensagem  famlia, pela psicografia, e inocentar Taciana e Daniel. Mas a famlia de
Alosio no acreditava em Espiritismo.
        Os parentes de Taciana sofriam com o ocorrido. Os pais acreditavam na inocncia
da filha e no sabiam o que fazer para ajud-la.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Vendo os assaltantes, Paulino e eu fomos  procura deles. Por informaes de
trabalhadores de um Centro Esprita, localizamos os dois na periferia da cidade. Eram
amigos e vizinhos. O maior de idade, Valdir, j tinha cometido em outros crimes. O outro,
com dezesseis anos, Man um bonito menino, comeou cedo na marginalidade, tambm j
participara de muitos assaltos. Ambos eram viciados em drogas.
        Ficamos observando os dois, que tinham por companhia espritos afins, mas eles
no nos viram. Tentamos faz-los pensar no crime que cometeram, mas eles nos repeliam.
Tentamos ajud-los com conselhos, fizeram mesmo. ramos intrusos que os incomodavam.
Apiedamo-nos dos dois jovens, entretanto no se pode ajudar quem no deseja. A ajuda
espiritual tem que ser pedida e aceita, seno torna-se invivel o auxlio.
        Aguardamos uma oportunidade e esta no demorou Numa batida, a polcia os
encontrou com drogas e os prendeu. Foram interrogados por um delegado, uma pessoa
simptica que atendeu nossos rogos.
        - Ei, vocs dois, confessem o crime que cometeram - falou sem perceber e at
estranhou.
        Os dois se assustaram, e o delegado olhou para eles com piedade.
        - Vamos, confessem! - repetiu.
        Que crime? - indagou Valdir com medo.
        - O que barbaramente cometeram!
        Como os dois ficassem espantados, o delegado interessou-se, sentiu que eles
escondiam algo mais e os ameaou. Valdir, querendo se livrar, falou:
        - No fui eu, senhor delegado. Foi ele quem matou aougueiro. Foi ele!
        - Cale a boca, idiota! - disse Man. - Voc est dopado. De fato, os dois haviam
consumido uma quantidade grande de drogas.
        - Vo me falar tudo direitinho. Que aougueiro? Quem vocs mataram? O jovem do
aougue da avenida?
        - Foi ele! - repetiu Valdir. - Foi ele!
        - Covarde! No fui eu! Est pondo a culpa em mim, porque sou menor.
        Os dois acabaram se agredindo. O delegado mandou tirar Man da sala e interrogou
Valdir, que acabou falando tudo. Foi ele quem matou Alosio. O delegado deixou os dois
presos e se comunicou com seu colega, outro delegado que estava encarregado de
desvendar o assassinato de Alosio.
        - Prendi dois adolescentes que confessaram ter mata do o jovem aougueiro.
        Taciana foi inocentada e Daniel ficou livre das suspeitas. Quanto aos dois
adolescentes, Valdir ficou preso e Man foi encaminhado a uma Instituio apropriada.
        - Taciana, minha filha - falou Dr. Cassiano. Pode ir para casa. Foram dois
assaltantes que mataram Alosio; confessaram e esto presos. Voc pode retornar ao seu lar,
pois est muito bem. E no se esquea dos meus conselhos. Voc teve um trauma ao ver
Alosio morto. E foi s! Nada de comentrios. Tudo isso logo ser esquecido.
        - Agradeo comovida. O doutor foi muito bom para mim. Acreditou no que eu
dizia. No me esquecerei de seus conselhos. Lembrei-me de minha existncia passada, mas
devo ignor-la. O que passou, passou, o presente  o que interessa. Vou de agora em diante
seguir a religio Esprita e quero ser uma boa Esprita.
        - E isto a, garota. Felicidades!
        Dr. Cassiano teve a comprovao da lei da reencarnao, e passou a se dedicar com
mais carinho aos estudos espritas.
Aconteceu                                                  pelo esprito de Antonio Carlos
                               Vera Lcia M. de Carvalho

        Logo que Taciana chegou em casa, parentes, vizinhos e amigos foram visit-la,
querendo saber dos detalhes. E, seguindo o que lhe foi recomendado, respondeu que teve
um simples trauma. Como o Dr. Cassiano predisse, logo se desinteressaram do assunto.
        Taciana ia logo voltar estudar, e teria que repetir o ano, mas no se importava
Mudou, tornou-se responsvel e passou a dedicar-se a trabalho de casa com carinho. Ela e
Daniel reiniciaram namoro e comearam a freqentar juntos um Centro Esprita.
        Uma visita a surpreendeu.
        - Taciana - chamou-a sua me. - Os pais de Alosio esto aqui e querem falar com
voc.
        Taciana ainda estremecia ao lembrar-se dos acontecimentos foi  sala, toda
encabulada.
        - Taciana - disse o pai de Alosio. - Viemos visit-la Como est passando?
        - No fui eu quem matou Alosio! - disse toda nervosa e baixinho.
        - Sabemos disso - disse a me de Alosio. - Viemos para nos desculpar.
        - Desculpo sim, desculpo - falou rpido.
        O casal percebeu que incomodava a mocinha e desculpou-se com os pais de
Taciana.
        - Compreendemos - disse a me de Taciana. - Temo filhos e calculamos o que 
perder um.
        O casal despediu-se.
        - Paulino - disse eu -, volto ao meu trabalho.
        - Tudo terminou bem, tambm volto aos meus afazeres no Centro Esprita, mas no
esquecerei de Valdir e Man, irei visit-los sempre e tentarei ajud-los, encaminhando-os
ao bem.
        - Espero que consiga!
        Abraamo-nos.

                                  O SINAL DE NASCENA

         Fui visitar um amigo. Pessoa a quem dedico muito carinho, trabalhou comigo por
um bom tempo, quando estava desencarnado. Achando que era hora de reencarnar, decidiu-
se com o objetivo de se reconciliar com o esprito que ia ser seu pai, e tambm pensando
em progredir. Julgava-se o ofensor, queria e sentia necessidade de estar perto do ex-
inimigo, para reparar-se, com seu carinho, junto a quem prejudicara no passado. Prometi
visit-lo e, se pudesse, ajud-lo no tempo em que estivesse no corpo fsico.
         Sempre que possvel, vou v-lo.
         Nesta visita, encontrei meu amigo em dificuldades. Jeferson completava trs anos
de idade.
         Garoto inteligente, saudvel e muito bonito, era o terceiro filho. Sua irm mais
velha, Mariza, alm de bonita era ajuizada, prestimosa e trabalhadeira. Estava com onze
anos. O irmo, Marcelo, tinha nove anos.
         Encontrei-os no apartamento, sozinhos. Mariza arrumava a mesa para o jantar aps
ter esquentado a comida.
         Os meninos brincavam em frente da televiso.
         Beatriz, a me, ao ficar grvida de Jeferson, separou-se do esposo.
         Agora, moravam os quatro num pequeno apartamento de dois quartos, num bairro
modesto de uma grande cidade.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Logo Beatriz chegou e estava acompanhada de dois espritos ansiosos por prazer.
Ao me verem, no entraram ficaram esperando a companheira encarnada do lado de fora do
prdio.
        Beatriz beijou os filhos distrada.
        - Mame - disse Mariza. - O jantar est quente, arrumei tudo direitinho.
        - Muito bem!
        Respondeu por responder. Sem dar mais ateno ou perguntar como estavam, foi
tomar banho. Jantou pouco e foi para o quarto arrumar-se. Marcelo indagou:
        - Mame, vai sair de novo? Tenho medo de ficar s com a Mariza  noite. No saia
hoje. Fique! Vai passar na televiso...
        Beatriz deu um grito to alto que at eu me assustei. Disse ao filho que se calasse,
que ia sair e deveriam ficai quietos e obedientes. Falou muitas asneiras, deixando os
meninos tristes e calados. Notei que estas cenas deveriam ser constantes.
        Achei que era o momento de cumprir a promessa de ajuda que fiz ao meu amigo.
Embora consciente de que no poderia interferir no livre-arbtrio dos encarnados, resolvi
investigar o que acontecia naquele lar.
        Toda enfeitada, Beatriz saiu e trancou as crianas. As duas entidades a esperavam
juntamente com um encarnado, num carro.
        Segui-os, foram a um barzinho.
        Voltei ao apartamento. Dei um passe nas crianas e limpei os fluidos nocivos do
local. Mariza ajudou os irmos a trocarem de roupa e a escovar os dentes.
        - Marcelo e Jeferson, no fiquem com medo. Estou aqui para cuidar de vocs.
        - Voc  to nova quanto eu. Papai disse que voc  criana  falou Marcelo.
        - Sou mais velha! - respondeu a menina. - Vamos orar para nosso Anjo da Guarda.
        Ps as mozinhas uma na outra, ato que foi imitado pelos irmos. Cheguei perto
dela e transmiti-lhe meus pensamentos. Mariza orou alto:
        - Papai do Cu, permita que seus anjos possam nos ajudar sempre. Se possvel fique
conosco nesta noite e no deixe Marcelo ter medo. Obrigada! Amm!
        Foram os trs para o quarto, dormiam juntos. No sentiram medo e adormeceram
logo, tranqilos.
        Fiquei no apartamento. A vizinha do lado, ao passar diante da porta fechada,
comentou com o esposo:
        - A sirigaita saiu e trancou as crianas. Se pegar fogo no prdio, elas morrem a
trancadas.
        - Se pegar fogo, arrombo a porta e as salvo  respondeu o esposo.
        - S trabalho para ela porque necessitamos do dinheiro que ganho e porque tenho
pena das crianas. Se alguma delas passar mal  noite, no sei o que pode acontecer.
        Os vizinhos eram boas pessoas. Dona Lourdes estava realmente preocupada.
        Trabalhava para Beatriz algumas horas por dia. Vinha cedo, arrumava o
apartamento e fazia o almoo.
        Ao meio-dia, o pai buscava os dois mais velhos para lev-los  escola. E ela ficava
com Jeferson at que voltassem, quando ficavam os trs sozinhos esperando a me voltar
do trabalho. Quando ela saa  noite, deixava-os trancados.
        Beatriz voltou de madrugada e bbada, foi dormir sem ao menos dar uma olhada
nas crianas.
        Fui  Colnia onde eu estava trabalhando e pedi uma licena. Obtida, voltei para
perto de meu amigo.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Na noite seguinte, a mesma cena. Beatriz chegou em casa acompanhada de dois
espritos. Vendo-me, iam sair, mas os detive. Ficaram nervosos e se puseram a me
examinar.
        - Por favor - disse. - Quero falar com vocs.
        - Nada temos com voc - disse um deles. - Acompanhamos esta idiota por afinidade.
 uma bbada! No pense voc que a foramos a beber. Ela  que gosta!  s convidar. Ela
 chegada a uma farra.
        - Por motivos particulares, vou ficar com ela por uns tempos. No quero que saia
mais. Peo aos amigos que no a convidem. Peo-lhes que se retirem e no voltem.
        - Voc  engraado, pede em vez de mandar - disse mesmo que respondeu
anteriormente. - Quero saber uma coisa: ela o obedecer?
        - Tambm no pretendo mandar. Vou aconselh-la.
        Riram. O outro indagou:
        - Que acontecer conosco se nos recusarmos a atend-lo?
        - Nesse caso, terei de impedi-los usando outros meios como lev-los a um Centro
Esprita para uma conversa mais sria.
        Os dois cochicharam.
        - Resolvemos atend-lo - disse o primeiro, que me dirigiu a palavra.
        Saram. Li em seus pensamentos que iam deixar de procurar Beatriz. Afinal tinham
muitos outros companheiros encarnados, e ela no valia a pena para terem um confronto
comigo ou com quem quer que fosse. Estavam a fim de divertimento e no se importavam
com quem.
        Beatriz naquela noite no saiu, para a alegria dos filhos. Desmarcou o encontro por
telefone, ficou com as crianas assistindo  televiso, e as ajudou a se aprontarem par para
dormir. Quando se recolheu ao leito, examinei-a, ela estava muito doente.
        No dia seguinte, acompanhei-a logo cedo, quando saiu para o trabalho.
        Beatriz era vendedora numa drogaria. No estava bem, pois a doena a incomodava.
A tarde pediu para sair mais cedo, para ir ao mdico. Antes, passou num laboratrio e
pegou os exames que havia feito na semana anterior.
        O mdico, aps os cumprimentos, abriu os exames e se ps a examin-los.
        - Os resultados confirmaram minhas suspeitas.
        - Que tenho doutor? - indagou Beatriz preocupada. -  realmente o que julgava?
        - Sim - respondeu de cabea baixa.
        Beatriz esforou-se para parecer forte. Aps uns instantes de silncio, falou:
        - Estou com leucemia... Quanto tempo tenho de vida? No minta para mim, por
favor. Tenho muitas providncias a tomar. Sou divorciada e tenho trs filhos que esto
comigo. Necessito encaminh-los.
        - Se fizer o tratamento, pode at sarar ou viver alguns meses somente.  difcil
prever. Se no se cuidar, acho que tem pouco tempo de vida. A senhora est debilitada,
demorou para consultar um mdico e fazer os exames.
        - O tratamento  muito caro, no ?
        - Sim, fica caro. Certamente a senhora ir se tratar.
        - Agradeo-lhe, mas vou pensar.
        - A senhora tem que resolver logo. J esperou muito.
        Beatriz levantou e estendeu a mo ao mdico, despedindo-se. Foi para casa
desanimada e triste. Ao ver os filhos, descobriu que os amava. Naquele dia foi carinhosa
com eles, e as crianas sentiram-se felizes pela ateno recebida. Ficou a pensar no que ia
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

fazer. Sua me desencarnara h tempos; o pai j velho e aposentado morava numa outra
cidade, numa pequena penso. Estava afastada de sua famlia por sua prpria culpa. Tinha
um irmo casado, que morava na mesma cidade do pai, e um outro, que desencarnou
jovem, aos dezenove anos, em acidente.
        O pai, mesmo ganhando pouco, ajudava-a dando-lhe todo ms o dinheiro do aluguel
do apartamento. Sentiu saudades dele e resolveu telefonar. Discou o nmero da penso e
pediu para cham-lo. Ao atender, perguntou logo o que ela queria. Beatriz compreendeu
que ultimamente s o incomodava e s se dirigia a ele para pedir dinheiro.
        O pai estranhou quando ela disse:
        - Telefonei s porque estou com saudades do senhor. Quero saber como est
passando.
        O pai queixou-se que no estava bem, que tinha ido ao mdico e seu corao estava
fraco, etc. Mandando beijos e abraos, ela desligou.
        "Meu pai no tem condies de ficar com meus filhos - pensou. "E nem meu
irmo."
        O irmo tinha os prprios filhos, no se davam bem h tempo no o via. A cunhada
a detestava. Por brigas no passado, em que ambas agiram erradas, procuravam nem saber
uma da outra. Sua famlia estava descartada, restava apenas o ex-esposo.
        Mrcio era bom.
        Reconhecia que ela  que no soubera manter o casamento. Sempre gostou de festas
e de sair com amigos; ele, no. Como ele se recusasse a sair, passou a faz-lo sozinha,
deixando os filhos com ele, com a empregada ou at sozinhos. Gastava muito com roupas, e
as brigas passaram a ser freqentes. Mas ela nunca traiu o esposo. Depois de separados, sim
teve muitos amantes. Estavam satisfeitos com um casal de filhos, e no queriam outros,
quando ela ficou grvida pela terceira vez. Foi um choque para os dois. Beatriz ficou mais
nervosa e inquieta. Numa costumeira briga, disse ao marido num acesso de raiva:
        - Este filho no  seu!
        Mrcio calou-se, por algum tempo ficou parado olhando-a, depois arrumou suas
roupas e saiu de casa, no voltando mais. Beatriz arrependeu-se, tentou desmentir, mas no
adiantou. Ele pediu o divrcio e se separaram legalmente. A guarda das crianas ficou com
ela, e Mrcio podia v-las sempre que quisesse. Ele levava os dois mais velhos  escola e,
aos domingos, buscava-os para passear, mas somente Mariza e Marcelo. Nunca ligou para
Jeferson, embora tivesse registrado o menino no seu nome.
        Tempos depois de ter sado de casa, Mrcio casou-se novamente com uma colega
do trabalho. Viviam bem e tiveram um filho, que os do primeiro casamento no conheciam.
        "Mrcio ficar com Mariza e Marcelo" - pensou Beatriz, triste. - "Mas e Jeferson?
Com quem irei deix-lo? Queria tanto os trs juntos!"
        As crianas j dormiam e Beatriz continuava na sala, pensando.
        "No irei me tratar. No tenho dinheiro. Tambm no ir me adiantar nada o
tratamento."
        Beatriz era formada em Biologia e, como trabalhava h anos numa farmcia,
conhecia bem a realidade de sua doena. Sabia que muitas pessoas haviam sarado. Mas
sentia que ela no conseguiria, pois descobrira a doena em estado muito avanado. E no
tinha dinheiro para o tratamento que sabia ser bem caro. Mrcio pagava a es cola dos filhos,
fazia a compra do ms no supermercado, pagava luz, o telefone e ainda lhe dava uma
pequena penso. No tinha o que reclamar dele. Com seu ordenado, ela comprava algumas
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

frutas, po, leite, roupas para as crianas e o resto gastava com ela; gostava de roupas novas
e enfeites.
         Decidida mesmo a no se tratar, tinha que resolver o que fazer com os filhos.
Acabou por se decidir a deixar os dois mais velhos com Mrcio, e tentar que aceitasse o
caula. Beatriz s conseguiu dormir de madrugada.
         No domingo, esperou por Mrcio, que veio  tarde buscar as crianas.
         Ficou na sala.
         Mrcio chegou e cumprimentou-a friamente, beijou os dois maiores e nem olhou
para Jeferson.
         - Mrcio - disse Beatriz. - Quero falar um instante com voc, por favor.
         A contragosto, acompanhou-a at a cozinha.  Mrcio no  justo voc tratar
Jeferson assim. Ele  seu filho. Juro!
         - No acredito em voc e nem em seus juramentos No sou o pai dele!
         - Faa um exame de sangue. Nunca o tra!
         - No me amole!
         Mrcio voltou  sala, pegou os dois mais velhos e saiu Jeferson, querendo passear,
sair com os irmos, comeou a chorar.
         "V passear com ele!" - Pedi  Beatriz que sasse com o menino. Aceitando minha
sugesto, levou-o para um pequeno passeio.
         Beatriz caminhou na calada em frente ao apartamento, de mos dadas com o filho.
Estava distrada. Com a confirmao da doena, ficou abatida. Bebia e fumava muito, havia
emagrecido nos ltimos dias, no estava bem. Embora caminhando devagar, cansou-se e
voltou logo para casa.
         Mariza e Marcelo foram a um parque com o pai, que no as levava  sua casa por
proibio de Beatriz. As crianas no se queixavam da me, no falavam nada quanto a
ficarem sozinhas e trancadas. No conheciam Paula, a segunda esposa do pai, mas no
gostavam dela, e at a temiam pelo que Beatriz dizia dela. A me falava que Paula era ruim,
que ia castig-los, que no gostava deles, que ela  que havia tirado o pai de casa, etc.
         Depois do passeio, Mrcio deixou as crianas na portaria do prdio e eu o
acompanhei.
         Mrcio preocupava-se, gostava muito dos dois filhos, era boa pessoa, honesto,
trabalhador e responsvel. Voltou para casa. A esposa, Paula, tambm era agradvel. O
casal tinha um filho, Fbio, uma criana deficiente mental. Os dois se amavam.
         Mrcio, assim que chegou, contou  esposa a conversa que teve com Beatriz.
         - Mrcio, ser que Jeferson no  mesmo seu filho? - Paula indagou.  No gosta
dele, no ?
         Mrcio, porm, no respondeu nada.
         No outro dia, segunda-feira, Beatriz no foi trabalhar. A tarde, foi ao mdico da
firma em que trabalhava, mostrou a ele os exames e pediu afastamento para tratamento. Foi
prontamente atendida. Depois foi  drogaria e entregou ao gerente a licena. Despediu-se
de todos. Ningum gostava sinceramente de Beatriz, embora ela trabalhasse ali h anos,
porque no foi capaz de fazer amizades. No se interessavam em saber o que ela tinha.
         Aps alguns abraos cordiais, Beatriz foi para casa.
         Disse a todos que estava de frias. Na tera-feira, telefonou para o ex-marido e lhe
disse que concordava com que ele viesse mais vezes ver as crianas, que ficasse com elas
nos finais de semana e at que elas poderiam ir  casa dele. Mrcio ficou feliz e comentou
com Paula.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

         - Beatriz j se cansa dos filhos! Eles a atrapalham, certamente quer sair, ir para a
farra.
         - Mrcio, voc ainda ficar com seus filhos  respondeu a esposa.
         Achando que os dois deveriam conhecer Fbio e Paula, antes de irem passar o fim
de semana em sua casa, Mrcio, na quarta-feira depois da aula, levou-os para conhecer o
irmozinho de que ele tanto lhes falava. Mariza e Marcelo ficaram desconfiados com Paula,
que tudo fez para os agradar.
         Quando chegaram, Beatriz indagou:
         - Gostaram da casa do seu pai? Gostaram de Fbio?
         - Fbio  diferente - disse Marcelo. - Ele  grande, mas  como se fosse beb.
         - E Paula? O que acharam dela?
         - No sei - respondeu Mariza. - Ela nos agradou. Mas, como voc disse que ela 
m, no lhe demos confiana.
         - Estava errada em relao a Paula, ela no  m. Acho mesmo que ela  boa, vocs
devem gostar dela. No foi ela quem tirou o pai de vocs daqui, na verdade ele e eu no
combinvamos h tempo. Na sexta-feira  tarde, vocs vo para a casa deles passar o fim de
semana. No precisam evitar Paula, podem gostar dela.
         Mariza e Marcelo se olharam, estranhando. Beatriz esforou-se para dizer isto,
depois levantou-se e foi chorar no quarto.
         Os dois foram na sexta-feira para a casa do pai e se divertiram muito. Paula gostou
muito deles e Mrcio ficou muito feliz.
         Aquele final de semana foi muito triste para Beatriz. Ela sentiu a falta dos filhos e
tentou brincar com Jeferson, que tambm sentia a ausncia dos irmos. Estava cada vez
pior.
         Tentei aconselh-la para que se tratasse, mas ela se recusava.
         Na segunda-feira, pegou todas as suas melhores roupas e bijuterias, procurou uma
loja que negociava objetos usados e os vendeu. Tambm foi a um orfanato onde adquiriu
folhetos explicativos sobre o processo de adoo. Pensava que, se Mrcio no ficasse com
Jeferson, iria deix-lo num orfanato, com toda a papelada em ordem, para que pudesse ser
adotado.
         Comecei a pensar em como agir, para ajudar meu amigo encarnado. Se ele
reencarnou com objetivo de se reconciliar com quem era agora seu pai, no podia deix-lo
ir parar num orfanato. Acompanhei de perto os acontecimentos.
         Na tera-feira  noite, Beatriz recebeu um telefonema, convidando-a para uma
noitada.
         Pedi-lhe que no fosse, insisti. No me atendeu e planejou divertir-se.
         Xingou por ter vendido suas roupas, arrumou-se como pde e saiu, deixando os trs
filhos tristes.
         De volta  sua turma, Beatriz comeou a beber e a fumar em demasia.
         Acabou por sentir-se mal e desmaiou. Os amigos tentaram reanim-la. No
conseguindo, tiveram de chamar uma ambulncia. No a acompanharam e ficaram
nervosos, comentaram que ela havia bebido demais ou usara drogas antes de encontr-los, e
no queriam se comprometer.
         No Pronto-socorro, o mdico que a atendeu, percebeu logo que seu estado era grave
e aplicou-lhe sangue e soro.
         A noite passou. No dia seguinte, Dona Lourdes foi trabalhar, mas encontrou a porta
do apartamento trancada e as crianas chorando. Mariza acordou com o choro de Jeferson
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

e, no vendo a me, apavorou-se e comeou a chorar tambm. O porteiro, a pedido de Dona
Lourdes, abriu a porta. As crianas se acalmaram. Dona Lourdes telefonou para Mrcio que
veio em seguida buscar os dois filhos.
        - Agradeo-a por ter me avisado. No sabia que Beatriz saa  noite e os deixava
trancados. Vou levar os dois e a senhora, por favor, cuide do pequeno.
        Arrumou algumas roupas deles, colocou-as numa mala e os levou para sua casa.
        Beatriz acordou s onze horas da manh e levou um susto. Ainda tomava as
transfuses de sangue e soro. Quis ir embora, mas a enfermeira disse que ela s poderia ir
quando acabassem os medicamentos. Logo veio o mdico que a atendeu, dando-lhe um
sermo que Beatriz escutou calada. Pediu para telefonar e a enfermeira lhe trouxe um
telefone. Foi um alvio conversar com Dona Lourdes, que lhe falou que Mrcio buscara os
dois e que ela estava com Jeferson. Beatriz contou que passou mal, que estava num Pronto-
socorro e que logo que possvel iria para casa.
        Dona Lourdes, como todos, pensou que Beatriz passara mal de tanto beber.
        Beatriz modificou-se fisicamente, abateu-se muito estava com aparncia pssima.
Voltou para casa  tardinha, agradeceu a Dona Lourdes e tentou brincar com Jeferson. No
se sentia bem, tinha dores e terrvel mal-estar.
        Jeferson chamava pelos irmos e queria Mariza, que cuidava dele  noite.
        Beatriz, triste, chorou muito. Por dias seguidos, tentou convencer Mrcio pelo
telefone a ficar tambm com Jeferson. Mas ele no queria. Conversou com Mariza e
Marcelo e viu que eles estavam contentes. Telefonou tambm para seu pai. Sentia-se
carente, sem ningum, pois os companheiros de farra no eram amigos. No quiseram nem
conversar com ela, quando tentou falar ao telefone com alguns deles e dizer que estava
doente.
        No sbado, Mrcio levou os dois para buscar o resto das roupas, mas aguardou-os
na portaria esperando. Os dois, quando entraram, foram primeiro abraar o irmozinho que
gritou de contentamento.
        - Mariza! Marcelo!
        - Jeferson, meu querido! - disse Mariza. - Que saudade!
        Depois foram abraar a me.
        - Oi, mame! disse Marcelo. - Jeferson est bem?
        - Sim, est, s que sente falta de vocs. Por que no pedem a seu pai que leve
Jferson tambm para a casa dele?
        Vou falar com ele - disse Mariza.
        Beatriz arrumou toda a roupa deles, como tambm os brinquedos, e se despediu dos
filhos com abraos e beijos. Jeferson ficou chorando, quando os irmos saram.
        Beatriz sentiu-se muito fraca e pensou: "No agento mais, acho que vou morrer
logo. Devo encaminhar Jeferson antes de partir."
        Na semana seguinte, seria feriado na quarta-feira e ela marcou um prazo e, se at
nesse dia Mrcio no ficasse com Jeferson, iria deix-lo no orfanato.
        No  fcil fazer um encarnado mudar de idia. Tentei tudo o que foi possvel pra
convencer Mrcio a ficar com Jeferson. Apelei at para Paula que, por sua vez, procurou
fazer o marido mudar de idia. Nada adiantou, estava irredutvel. Tambm pedi  Beatriz
que falasse a todos a verdade sobre sua doena. Mas ela pensava: "No quero piedade!
Certamente iro dizer 'bem feito'. Ou no vo acreditar, pois j inventei tantas. No quero
que meu pai saiba, ele iria se preocupar e sofrer comigo; j sofreu muito. No vou falar a
ningum."
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Pesquisei detalhes para mais uma tentativa de ajuda, e achei. Fbio tinha um sinal
de nascena, uma pinta no abdmen, um estranho sinal na pele. Parecia uma estrela com
uma das pontas maior. O mesmo sinal tinha Jeferson e no mesmo lugar.
        Temos, no Plano Espiritual, muitos remdios dos quais fazemos uso quando
necessrio. Fui ao laboratrio da Colnia e pedi um preparado que pudesse fazer a pele do
encarnado avermelhar sem causar dano. De posse desse preparado, passei ria pele em volta
do sinal de Fbio, que ficou vermelha e chamou a ateno da me.
        Todos reunidos na sala aps o jantar, Paula comentou com Mrcio sobre o sinal de
nascena que Fbio tinha, e as crianas escutaram.
        - Fbio tem um sinal de nascena? - Mariza indagou.
        - Tem sim - respondeu o pai. - Uma pinta igual  do meu pai. Vocs querem ver
uma foto do seu av?
        - Queremos - responderam os dois.
        Mrcio pegou um lbum e mostrou-o s crianas.
        - Este  o av de vocs. Aqui est sem camisa. Observem a pinta, bem visvel. Meu
pai dizia que era a estrela da sorte, porm no  para Fbio.
        - E, como vocs podem ver, Fbio tem o mesmo sinal - disse Paula erguendo a
blusinha de Fbio.
        Mariza e Marcelo olharam calados. Intuda por mim Mariza falou encabulada:
        - Jeferson tem o mesmo sinal, igualzinho ao do Fbio.
        - Qu!? - espantou-se Mrcio.
        - Tem sim - Mariza continuou a falar. - Ele tambm no  neto do vov?
        - Sim,  claro - respondeu o pai.
        Mudaram de assunto, mas quando as crianas foram dormir, Mrcio comentou com
Paula.
        - Se Jeferson tem o mesmo sinal,  porque deve ser meu filho.
        - Mrcio, faa um exame de paternidade - disse Paula. - Esse sinal  raro e s pode
ser hereditrio. Voc pode estar sendo injusto com o menino. Hoje levei Fbio ao mdico,
que me disse que ele no dever viver muito porque sua doena no corao se agrava a
cada dia. E eu no posso ter mais filhos. Lembra-se que, quando tive Fbio, sofri uma
hemorragia e para estanc-la tiveram que extrair o tero. Mas voc tem seus filhos. Amo os
do como meus e amarei Jeferson.
        Mrcio ficou pensativo, mas no se decidiu.
        Beatriz, como havia resolvido, no falou a ningum de sua doena. A nica a
perceber que ela no estava bem foi Dona Lourdes, mas achou que fosse bebedeira.
        Beatriz no saiu mais de casa e tentava dar ateno a Jeferson que estava irritado
sentindo falta dos irmos.
        A quarta-feira chegou. Acabou o prazo que Beatriz dera si mesma. Fraca, sentia que
no tinha mais condies de esperar. Tinha que internar-se. Conforme combinou Mariza e
Marcelo viriam  tarde para visit-la.
        Passei o mesmo medicamento no sinal de Jeferson e a pele avermelhou-se. Dona
Lourdes viu e preocupou-se.
        Como faltava algum tempo para que as crianas chegassem Dona Lourdes saiu para
passear um pouco com Jeferson que estava choro.
        Beatriz ficou no leito e disse estar resfriada. Mrcio, porm, veio mais cedo para
que os filhos pudessem ver alguns amiguinhos. Insistiu com Paula para que fosse junto e
levasse Fbio para passear. Ela foi e ficou aguardando o marido, na pracinha, perto do
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

prdio em que Dona Lourdes costumava levar Jeferson para passear. As duas, por minha
intuio, sentaram-se no mesmo banco.
        -  seu neto? Bonito menino - disse Paula.
        - No,  filho de uma vizinha. Tomo conta dele,  bonzinho, s que hoje est
inquieto e choro. Por isto sa um pouco com ele. Acho que  o vermelho que apareceu na
sua barriga. Olhe!
        Levantou a camiseta de Jeferson, e Paula viu abismada o sinal.
        - Como o garoto se chama?
        - Jeferson.
        Paula entendeu que tinha  sua frente o filho de Mrcio.
        Dona Lourdes logo se despediu, ia levar o menino para ver os irmos.
        Mrcio deixou as crianas no prdio e voltou para perto de Paula. S mais tarde iria
pegar os filhos.
        - Mrcio - falou Paula ao v-lo. - Vi Jeferson com Dona Lourdes, a senhora que
cuida dele. O menino  muito parecido com voc e tem o sinal idntico ao de Fbio. Beatriz
deve estar falando a verdade. Talvez quando ela esperava a criana, num momento de raiva,
para atingi-lo, disse que no era seu filho.
        - Jeferson, meu filho? Nunca me importei com ele! No gosto dele!
        - No gosta porque no viu nele seu filho. Se passar a pensar que  seu, gostar.
        - Paula, que fao?
        - Vamos pensar. Talvez Mariza e Marcelo quando voltarem possam nos dizer o que
est acontecendo com Beatriz, e a resolveremos.
        No apartamento, Mariza e Marcelo brincaram muito com Jeferson. O garoto ficou
feliz com a presena dos irmos. Foram ver a me no quarto.
        - Estou com muita dor de cabea, no acendam a luz.
        Beatriz os abraou e beijou procurando manter a calma.
        Ouvindo a campainha e a voz de Mrcio, os meninos despediram-se e Jeferson
comeou a chorar alto, querendo ir junto. Beatriz tentou agradar o garoto. No estava
conseguindo ficar em p e chorou tambm. At que conseguiu que Jeferson se interessasse
pela televiso.
        Em casa, Marcelo comentou com o pai:
        - Mame est feia, ela escureceu o quarto dizendo estar com dor de cabea. Parece
que est doente, est magra e plida...
        Insisti para que Mrcio pensasse no choro de Jeferson.
        Ficou inquieto, at que perguntou:
        - Mariza, Marcelo, vocs sentem falta de Jeferson?
        - Sim, gostaria que ele estivesse aqui - respondeu Mariza. - Ele  to pequeno.
Sempre cuidei dele.
        - Eu tambm queria ele aqui - Marcelo falou srio. - L est sozinho. Se a mame
sair, com quem ele ficar?
        Vamos busc-lo! - disse Mrcio.
        - Vamos! - responderam Paula, Mariza e Marcelo. At Fbio sorriu contente.
        Mariza foi com o pai ao apartamento de Beatriz. Jeferson j estava dormindo e
nossa doente, triste e pensativa. Decidira que no outro dia cedo levaria Jeferson para o
orfanato e depois se internaria num hospital. A campainha tocou e Mariza gritou pela me.
Beatriz levantou-se com dificuldades, abriu a porta e pediu.
        - Mariza, s entre quando eu disser que pode.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        Voltou ao quarto e esperou atrs da porta, que estava um pouco aberta. Quando
gritou 'pode', Mariza e o pai entraram, e Mrcio falou:
        - Beatriz, viemos buscar Jeferson. Vou lev-lo comigo.
        - Graas a Deus! - falou aliviada. - Sim,  claro, voc pode lev-lo!
        Mrcio no pde deixar de pensar: - "Ela no quer mesmo mais os filhos."
        - Mariza, vem me ajudar a arrumar as roupas de Jeferson.
        Mrcio trouxe duas malas e Mariza as levou para o quarto. Ele ficou esperando na
sala. A mando da me, a filha arrastou a caminha de Jeferson para a sala. Mrcio a
desmontou e a levou para o carro. Jeferson dormia em uma das camas dos irmos. No
demoraram muito, e as duas arrumaram todos os objetos do menino, que Mrcio levou para
o carro. Beatriz beijou o filho. Sabia que era a ltima vez que o fazia, esforou-se para no
chorar. Beijou tambm Mariza e pediu.
        - Mariza, voc j  mocinha, cuide dos seus irmozinhos.
        - Sim, mame.
        Beatriz ajudou Mariza a pegar Jeferson e mandou que ela fosse para a sala. Viu pelo
vo da porta Mrcio pegar o garoto, e todos saram sem nada falar. Beatriz, ento, chorou
sentida, mas estava aliviada. Os filhos ficariam juntos e com o pai.
        Mrcio e Paula colocaram a caminha de Jeferson no quarto, junto com as de Mariza
e de Marcelo. Os dois estavam felizes. A ss, Mrcio comentou com a esposa:
        - Paula, o garoto parece realmente comigo. Vi seu sinal,  igual ao de Fbio. Vou
me esforar para am-lo.
        - Ser fcil! Eu j o amo!
        - Paula, voc  meu anjo!
        - Quando Deus nos levar Fbio, terei os trs para me consolar. So crianas to
carentes.
        Fbio gosta deles e eles, do nosso filho.
        Beatriz dormiu pouco. Quando clareou o dia, escreveu algumas cartas. Ao seu pai,
contando tudo o que acontecia e lhe pedindo perdo. Depois escreveu aos filhos. No deixei
que se queixasse, e ela me atendeu. Foi simples, falando que os amava muito e pedindo que
fossem bons. Repartiu suas jias entre eles.
        Quando Dona Lourdes chegou para trabalhar, Beatriz no querendo que ela a visse,
disse do quarto:
        - Dona Lourdes, Mrcio veio buscar Jeferson para morar com eles. Por isto no
preciso mais da senhora. Quero agradecer-lhe, pois foi to boa conosco. Em cima da mesa
est o dinheiro que lhe devo. Gostaria de lhe pedir mais um favor: que a senhora pagasse
essas contas para mim. Tambm quero lhe dar os objetos que esto em cima da mesa,
porque sei que a senhora os aprecia. Vou viajar por uns tempos.
        - No quer nem que eu limpe a casa?
        - No  necessrio e agradeo.
        - Ento boa viagem e obrigada. Pagarei tudo para a senhora.
        Quando Dona Lourdes saiu, Beatriz trancou a porta. Deixou as cartas em cima de
sua cama e arrumou numa sacola pequena algumas roupas que julgou precisar no hospital.
        Depois telefonou para Mrcio e deu rapidamente o seu recado.
        - Mrcio, estou de frias e vou viajar.
        O ex-marido no pde deixar de comentar com seus colegas de trabalho:
        - Foi por isso que deixou as crianas comigo. S que no quero devolv-las, porque
penso em ficar com elas. Vou consultar um advogado e pedir em juzo a guarda deles.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        - Mrcio, aguarde mais um pouco. Acho que Beatriz no ir querer mais os filhos 
disse um dos seus colegas.
        - E, tem razo, vou aguardar.
        Beatriz trancou o apartamento, deixou a chave com o porteiro, pegou um txi e foi
para o hospital.
        No hospital, aguardou uma consulta do convnio do governo a que tinha direito por
ser registrada no trabalho. O mdico ao verificar os exames deixou-a internada. Beatriz no
lutou pela vida. Triste e deprimida, ficava calada quase o tempo todo.
        Porm no se queixava. Fiquei bastante ao seu lado. Pensou muito nos seus erros e a
incentivei a orar. A orao foi-lhe de grande alvio e consolo, como  sempre para todos os
que a fazem de modo sincero.
        Nesse tempo em que Beatriz ficou no hospital, seus filhos sentiram sua falta. Porm
estavam muito felizes com o pai. Brincavam com Fbio, que passou a ser mais alegre.
        Alimentavam-se bem e na hora certa, no ficavam mais sozinhos e, com minha
ajuda, Jeferson acabou por conquistar o pai. As vezes, os dois mais velhos indagavam a
Mrcio:
        - Papai, quando mame volta?
        - No sei.
        Mrcio respondia, mas pensava que seria bom ela no mais voltar.
        Beatriz, no estado agravado em que estava sua doena, no demorou muito para
desencarnar. Sua desencarnao foi agoniada. Horas aps seu corpo ter morrido, consegui
deslig-la e lev-la adormecida para um Posto de Socorro. Ela deixou os telefones de Dona
Lourdes e de Mrcio no hospital e, quando desencarnou, telefonaram avisando. Mrcio
levou um susto, mas tratou de cuidar de tudo. Avisou o pai de Beatriz, que veio com o
irmo dela. Mrcio e Paula acharam melhor as crianas no verem a me morta. Disseram-
lhes que a me morrera longe, de acidente. No velrio e no enterro s havia cinco pessoas,
o pai, o irmo, Dona Lourdes, Mrcio e eu.
        Resolvidos a se desfazerem do apartamento, foram l os quatro acharam as cartas.
Mrcio as pegou, prometendo entregar aos filhos, juntamente com as jias. Em conversa
rpida, deixaram que Dona Lourdes vendesse todos os mveis, pagasse as despesas do
apartamento e entregasse as chaves ao proprietrio. O pai e o irmo re tornaram logo para a
cidade em que residiam.
        Mrcio leu as cartas e comentou com Paula os acontecimentos.
        - Beatriz estava doente, e eu fazendo idia errada do seu comportamento.
        - Mrcio, voc no teve culpa, Beatriz aprontou muito, era natural que desconfiasse
dela. Vamos esquecer tudo isso. Temos quatro filhos para educar e encaminhar na vida. 
neles que devemos pensar.
        - Que agora so nossos, nada e ningum os tirar de ns. Seremos felizes - disse
Mrcio disposto a esquecer o passado.
        De fato, embora com os problemas de Fbio, eram felizes. Mrcio, de boa ndole,
acabou amando Jeferson que cresceu forte, sadio e honesto, reconciliando-se, no dia-a-dia
atravs da convivncia, com seu desafeto do passado.
        No descuidei de Beatriz, procurando sempre saber dela. Aps alguns meses de sua
desencarnao, fui visit-la.
        - Que surpresa agradvel! - exclamou Beatriz contente por me ver.  O doutor
desencarnado que cuidou de mim com tanto carinho.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

         - Como vai, Beatriz? Que bom encontr-la bem e cons ciente de seu estado de
desencarnada.
         - Como se chama?
         - Antnio Carlos.
         - Eu no merecia tanto cuidado e carinho. Sentia, quando encarnada e doente, o
senhor perto de mim, consolando-me, incentivando a ter resignao e pacincia, e a orar.
Depois, quando desencarnei, vim a saber que fora o senhor quem me trouxe para este Posto
de Amor e que tem procurado sempre saber notcias minhas. O senhor teve por mim,
quando estive doente, um carinho de pai. Agradeo-lhe de corao. Sem sua ajuda,
certamente, teria agido de outra forma e depois de desencarnada iria vagar ou ir para o
Umbral. No fiz amigos nem encarnados, nem desencarnados. Certamente ningum se
lembraria de mim para um socorro. Ainda bem que segui seus conselhos, arrependendo-me
dos erros e orando. Meu amigo e benfeitor, por que fez tudo isso por mim?
         - Beatriz, voc est se esquecendo que Deus  Pai de todos ns e que nos ama
muito.
         - Estava to afastada de Deus! Sei que Ele no se afastou de mim, mas sim eu, Dele.
Mas por que me ajudou?
         - Por Jeferson. Seu filho mais novo e eu somos amigos. Prometi ajud-lo quando ele
decidiu reencarnar.
         - Ento, foi por ele que me ajudou - falou Beatriz.
         - Sim.
         - Sabe dos meus filhos? Tenho enorme saudades.
         - Mrcio aceitou Jeferson e o ama. Esto todos muito bem, saudveis e felizes.
         - Esto melhor agora do que quando estavam comigo - disse Beatriz com tristeza.
         - Nada, respondi. -Compreendi que ela tinha total conscincia dos erros do passado,
mas, como o passado ficou para trs, deveria ter esperanas no futuro, e isso ela tinha.
Desejava o melhor para si, e querer  lutar para conseguir. Permanecemos por instantes em
silncio.
         Depois Beatriz falou olhando-me.
         - Antnio Carlos, quando fiquei grvida de Jeferson, Mrcio e eu j no vivamos
bem e eu no queria mais filhos. Pensei em abortar, cheguei mesmo a procurar algum que
me fizesse isso. Mas no tive coragem. Com todos os meus defeitos, amei, amo meus
filhos, e amei Jeferson antes de ele nascer. Agora entendo o bem que fiz a mim mesma, no
abortando. Se o tivesse feito, Jeferson, seu amigo, no teria reencarnado, o senhor no teria
ido ajud-lo e conseqentemente tambm no teria me auxiliado, porque no mereceria
ajuda. Teria sofrido muito mais e certamente estaria sofrendo ainda. Agradeo todos os dias
ao Pai Misericordioso e agora ao senhor.
         Sorri em resposta ao agradecimento sincero de Beatriz. Ela estava certa, se no
fosse por Jeferson eu no teria ajudado. Sorrindo, tambm, Beatriz completou:
         - Ainda bem que tive Jeferson!

                                      QUEM ME MATOU?

        Estava sentado em minha poltrona preferida, na sala de minha casa, aps um
exaustivo dia de trabalho. Assistia, como de costume, ao programa preferido na televiso,
quando ouvi um estampido e senti uma dor no peito. A dor foi to forte e aguda que perdi
os sentidos.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Acordei num leito alvo e confortvel. Lembrei-me de tudo o que senti.
        - Que ser que me aconteceu? - murmurei baixinho. Confuso, no sabia o que
ocorrera.
        De repente, vi minha me entrar no quarto em que estava. Olhava examinando- me,
ao entrar bem devagarinho.
        Estranho, no tive medo, mesmo porque minha me havia desencarnado h muito
tempo.
        Parece que ao v-la entendi que meu corpo morrera, embora no sabendo como nem
por qu. Como se a morte do corpo pudesse dar estas respostas: do "como" e do "por qu".
        Acho que estar encarnado  ser candidato  desencarnao. Mame veio at mim de
mansinho.
        - Oi, me - disse. - A sua bno!
        - Deus o abenoe!
        Abraamo-nos. Silenciamo-nos por minutos e depois a enchi de perguntas.
        - Morri, mame? Por qu? Que aconteceu? Onde estou? Vou ficar aqui para
sempre?
        - Calma, Clvis. - respondeu minha me tranqilamente. - Foi s seu corpo que
morreu. Voc est se recuperando num Posto de Socorro. A vida continua e voc poder
ficar aqui ou ir para outros lugares to bons e belos quanto este. Ter muito o que fazer
aqui, onde poder estudar e trabalhar.
        -Estudar e trabalhar?
        Indaguei e calei, no gostei muito da idia, no momento. Havia trabalhado tanto
durante toda minha vida encarnada e me achava velho para estudar.
        - Clvis,  melhor descansar agora. Volto depois.
        Mame achou melhor eu ficar sozinho e me inteirar da vida de desencarnado aos
poucos. Saiu e fiquei a pensar.
        "Fui assassinado! O barulho que ouvi foi de uma arma de fogo e a dor foi da bala
entrando no meu corpo" - conclu.
        Esperei ansioso pela visita de mame e logo que ela chegou lhe falei:
        - Mame, fui assassinado! Por quem? A senhora sabe?
        - Clvis, esquea esses detalhes. Deve pensar no futuro e no no passado. Que
adianta voc saber, mudaria alguma coisa?
        - Detalhes? - indaguei sentido. - Algum me matou e a senhora diz serem detalhes?
        - Esquea esse fato, por favor.
        Mas eu era teimoso, no me esqueci e isso me incomodava. Um orientador do
hospital veio conversar comigo. Tentou ajudar-me com conselhos e orientao.
        - No pense mais nisso - disse ele tentando convencer-me.  Direcione seus
pensamentos para o que ir fazer de agora para frente, pense na sua existncia na
espiritualidade e na alegria de poder ser til.
        Agradeci os conselhos. Mas continuei a matutar: Fui assassinado. Mas por quem?
Se mame e o orientador sabem, no iro me falar. Preciso saber.
        Pedi licena para sair do Posto e ir para casa e investigar. No me deram. No
estava ainda em condies de sair do hospital. Tinha que aprender muito e no poderia ter
permisso para algo to trivial. Essa, a opinio deles. Para mim, era importante saber quem
me matara. Era essencial. Resolvi sair do Posto de Socorro e descobrir. No adiantaram
conselhos e rogos de minha me. Sa mesmo!
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        Voltei ao meu ex-lar. Tudo permanecia como sempre. Minha esposa pareceu-me
muito cansada, envelhecera, estava triste e saudosa. Fomos casados por trinta e quatro anos,
tnhamos trs filhos, todos casados. Minha casa era grande e dvamos penso a um grupo
pequeno de pessoas para ajudar nas despesas. Quando os filhos estavam na idade de
estudar, o dinheiro era para custear seus estudos. Tambm, Maria, minha esposa, gostava de
ajudar a famlia. Ultimamente, porque nos acostumamos com os hspedes e continuamos a
ajudar os filhos e netos.
        Os hspedes continuavam os mesmos. Todos pessoas boas: um jovem casal, dois
moos que estudavam, e Ari, hspede de muitos anos.
        Se havia voltado para investigar, era melhor comear logo. Primeiro, a esposa, pois
nunca se sabe... Embora nos quisssemos bem e confiasse nela. Mas, enfim, todos eram
suspeitos.
        Lendo seus pensamentos, vim a saber o que realmente aconteceu. Fui assassinado,
deram-me um tiro e a polcia nada descobriu, no achando nenhuma pista. No foi para
roubar, j que nada levaram e ningum da casa viu qualquer coisa suspeita. Assim a polcia
nada descobriu e nem fez fora para desvendar o mistrio. Mas ainda bem que no foi a
minha Maria. Ela no sabia de mais nada: sofreu e sofria muito com meu desenlace.
        Fiz uma lista de suspeitos e continuei a investigar. Verifiquei os filhos, e tive at
remorso, porque eles me queriam muito bem. Aliviado, risquei os familiares.
        Investiguei os hspedes. Tambm nada, no foram eles. , incrvel, todos sentiam
minha falta.
        Fui  fbrica, onde tantos anos trabalhei, nada. Ningum entre meus companheiros
de trabalho era o assassino.
        A lista acabou. Estava difcil realmente de descobrir o assassino. Fiz outra lista,
desta vez com os nomes de pessoas com quem tive alguma desavena ou discusso.
        Pensei, pensei e vi que eram poucas as pessoas e com todos fiz as pazes. Fui... era
um sujeito pacato.
        "Mas, afinal, quem me matou?" - Indagava e no conseguia resposta. Mame,
pacienciosa, veio at mim, insistindo em que voltasse ao Posto de Socorro com ela.
        - Clvis, voc  bom! Foi timo filho, esposo, pai e amigo, cumpridor de seus
deveres e todos gostavam de voc. Fiquei feliz em poder socorr-lo, quando desencarnou.
Esquea esse fato! Que diferena ir fazer? Venha comigo!
        - No, mame, no vou porque no consigo esquecer. Estava aqui, nesta poltrona,
quando recebi o tiro e no vi quem foi. Quero saber!
        Mame despediu-se triste e fiquei a matutar. A verdade  que no tinha mais quem
investigar. Fiquei sentado na sala, tentando achar a soluo para to complicado enigma.
        Foi quando vi Ari, nosso hspede, sair s escondidas, passar pela sala examinando
bem se no era visto por ningum. Observando-o, percebi que ele tinha meu jeito de andar,
embora fosse bem mais novo que eu: regulvamos no peso e altura. Como no estava
fazendo nada, resolvi seguir nosso hspede, que com cuidado saiu pelo vitr da sala que
dava para os fundos, subiu no muro e pulou no quintal da vizinha ao lado. O safado foi
encontrar-se com a nossa bonita e alegre vizinha, que era casada com um sujeito um tanto
estranho e calado.
        No tendo nada com sua atitude, ia retirar-me, quando escutei-a dirigir-se a ele:
        - Ari, voc tomou cuidado? Sabe bem que meu marido  capaz de mat-lo, se vier a
descobrir nosso caso. Vai ser difcil de ser confundido com outro novamente.
Aconteceu                                                      pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

        Confundir com outro? Isto me intrigou. Retirei-me, mas voltei quando o vizinho
chegou em casa. Fiquei ao seu lado e indaguei-o. Muitas vezes o desencarnado pode induzir
um encarnado a pensar no que deseja. Aproximei-me bem dele e fiz com que pensasse em
mim e na minha desencarnao.
        Triste, descobri que o vizinho confundiu Ari comigo. Pensou, pensava que eu estava
tendo encontros com sua esposa. Planejou e me assassinou friamente, usando o mesmo
caminho que Ari fez naquela tarde.
        No me alegrei com o que descobri. Como poderia algum tirar a vida fsica de
outro, de modo to frio, sem sequer odiar, ou ter certeza de que por ele foi trado. Pior  que
ele no tinha remorsos e, como descobri lendo pensamentos, j assassinara outros e tudo
por causa da esposa que continuava traindo-o.
        Voltei para meu ex-lar terreno, escondi-me num dos cantos da sala e chorei. Depois
de um bom tempo assim, cheguei a uma concluso: "Sou um defunto vivo em esprito, um
desencarnado, que no deve ficar entre os que tm corpo fsico, ou seja, os encarnados. Eles
no me vem e eu no participo mais da forma de vida deles. Devo ir para onde estava. Mas
como? No sei voltar. Talvez mame me ajude de novo". Ento pensei: "Me, mame, por
favor!"
        Chamei-a concentrando-me, implorando ajuda. No demorou muito e ela estava na
minha frente. Ao v-la, refugiei-me em seus braos, como se ainda fosse criana.
        - Mame, descobri quem me assassinou. E no me fez bem nenhum. Morri por
engano!
        - Clvis, melhor assim do que se fosse culpado! Voltemos ao Posto de Socorro, meu
filho. Esquea tudo isso!
        - Eles nunca vo ficar sabendo quem me assassinou! - queixei-me.
        - Que importa? O criminoso sabe e no pode fugir do seu ato. Nunca esquecer. Se
no momento no sente remorso, um dia o ter, e tambm sentir a reao desse crime.
        Voltei com ela para o Posto de Socorro, onde me entreguei  Vida Espiritual. Vim a
saber tambm que nem todos que desencarnaram assassinados e no viram o responsvel,
tm esta curiosidade. Isto aconteceu comigo particularmente. Maria, minha esposa querida,
logo se encontraria comigo e esforcei-me para ficar apto a ajuda-la no momento em que,
por algum motivo, deixasse o corpo fsico. Depois, pensando bem, conclu: no nos
importam os "como" e "por qus". O corpo morre, e pronto,  perecvel!

                                             O RAPTO

       Recebi um agradvel convite.
       - Antnio Carlos, voc no quer vir comigo visitar dois dos meus filhos? Ficarei
contente se vier.
       Um dos encarnados que visitarei, necessita de uma assistncia mdica.
       Epitcio  um amigo de muito tempo, e trabalhvamos juntos nessa ocasio.
       - Irei com prazer - respondi.
       Assim, acompanhei Epitcio na visita a seus entes que ridos. Dois de seus filhos
moravam numa casinha modesta no subrbio de uma cidade de porte mdio. Rodrigo de
oito anos e Juquinha de trs anos, foram adotados por Justina, que era solteira, negra,
bondosa e de sorriso encantador. No s adotou os dois filhos do meu amigo, como
tambm outras duas crianas, Lenita, de seis anos, e Donizette, de quase quatro. A casa era
pobre, mas limpa e no faltava o necessrio.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        Lenita estava acamada com forte crise de bronquite.
        - Pedi para vir comigo - disse Epitcio - para que ajude Justina.
        - Pensei que fosse Lenita a preocup-lo!
        Cheguei perto de Justina e a examinei. Para um mdico desencarnado que tem anos
de experincia, no  difcil ver a doena no corpo fsico ou perispiritual. Assim, constatei
que ela estava com uma das artrias principais quase bloqueada pelo colesterol.
        - Antnio Carlos - disse Epitcio -,  to importante que Justina viva encarnada e
com sade mais um tempo.
        Justina tinha quarenta e trs anos, e s estava com este problema de sade, era forte
e corpulenta. Todos merecem ajuda, principalmente quem pede. Epitcio pedia por ela e
certamente meu amigo tinha motivos fortes para interceder em seu favor.
        Quanto  nossa ajuda, a dos desencarnados, depende de muitos fatores. Porque nem
sempre a doena  a pior coisa. As vezes uma doena  um sofrimento necessrio, um
grande remdio para o esprito. Tambm nossa ajuda deve ser aceita e nem tudo podemos
ou temos permisso para fazer.
        O jantar simples foi servido. Aps, Justina foi lavar a loua, ligou o rdio, e os
meninos foram brincar. Lenita continuou no leito.
        Rodrigo e Juquinha eram claros, Lenita e Donizette eram mulatos, todos muito
bonitos.
        -  melhor, para que entenda - disse Epitcio -, que eu conte minha histria.
Morava, quando encarnado, aqui perto. Minha esposa e eu h muito conhecemos Justina, e
uma sincera amizade nos uniu. Trabalhava na lavoura, como bia-fria, e Justina sempre foi
empregada domstica. Ela morava aqui mesmo com os pais e cuidou deles, quando velhos,
com muito amor. Quando desencarnaram, ficou sozinha. Eu era saudvel, mas desencarnei
por causa de uma picada de cobra. Deixei a esposa com seis filhos, sendo que Juquinha, o
meu caula, que se chama Jos, ainda no ventre da me. Justina ajudou muito minha
famlia, ela  madrinha de Rodrigo. Minha esposa passou por muitas dificuldades, e Justina
sempre esteve ao seu lado. Quando Juquinha estava com quatro meses, minha esposa
sentiu-se mal, foi internada e diagnosticaram cncer em estado adiantado. Sabendo que ia
morrer, deu os filhos, e dois ficaram com Justina que j tinha adotado Lenita e Donizette.
Meus outros quatro filhos esto bem, no moram juntos, mas cada um com uma famlia
diferente, s Rodrigo e Juquinha esto aqui. Embora meus outros filhos estejam bem, no
so to amados como estes dois. Justina  nossa benfeitora.
        - E sua esposa? - indaguei
        - Est muito bem. Estuda na Colnia e vem sempre tambm ver os filhos 
respondeu Epitcio.
        Foram dormir. Mediquei Lenita que, aliviada, dormiu tranqila. No foi difcil ver a
existncia anterior da menina. Lenita, na encarnao passada, tomou forte dose de veneno e
veio a desencarnar. Foi uma suicida.
        - Justina est tendo dores no peito, cansao e falta de ar - explicou-me Epitcio.
        Pedi ajuda a uma equipe de mdicos desencarnados, da Colnia, que gentilmente
veio e, aps horas de trabalho, desobstrumos uma artria no peito de Justina.
        Epitcio ficou olhando e orando o tempo todo. Quando acabamos, despedimo-nos
da equipe, agradecendo.
        Falei esperanoso a Epitcio:
        - Justina ficar bem!
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Lenita melhorou, mas fui examin-la novamente e a menina sonhava. No seu sonho,
seu crebro fsico recordava seus pais, mulatos bonitos, e a casa onde morava, que era
confortvel e grande.
        De manh, Justina acordou e sentiu uma fraca dor no peito. O ideal seria que
repousasse, mas ela tinha muitos afazeres. E trabalhou como sempre: fez o almoo,
arrumou a casa, lavou as roupas e acordou as crianas, deixando o caf para Rodrigo, e lhe
recomendou:
        - Rodrigo, fique bonzinho! Volte para casa como sempre l pelas onze horas e
almoce, depois v  escola.
        - Sim, madrinha.
        - As crianas - explicou-me Epitcio - chamam Justina de madrinha.
        Beijou Rodrigo e saiu com os outros trs. Levava-os  creche onde os deixava para
ir trabalhar. Rodrigo no ia porque estava na escola e engraxava sapatos, no centro da
cidade.
        Era uma criana responsvel, mas Justina se preocupava em deix-lo sozinho.
        Justina, depois, foi para o trabalho. Era empregada domstica, trabalhava muito,
mas bem remunerada pela tarefa que exercia. Fazia todo o servio da casa e ainda cuidava
de uma senhora doente, dando-lhe, s vezes, at banho. Trabalhava na casa de um casal que
j tinha os dois filhos casados, e com eles morava a me de sua patroa, que era muito idosa
e doente.
        Indaguei a Epitcio:
        - Lenita e Donizette so rfos?
        - No sei, Justina os achou perdidos perto de sua casa. Os dois estavam muito
magros, famintos e machucados por terem sido surrados. A menina na poca dizia ter trs
anos e chamar-se Lenita. O menino aparentava ter um ano e poucos meses. Ela chamava o
menino de Dom. Justina achou que era Donizette e o chama assim. Na poca, Justina foi 
delegacia, a polcia procurou investigar, mas no achou os pais das crianas. Lenita no
sabia explicar onde moravam e nem o sobrenome que tinham. S contou que o homem mau
bateu neles. Justina, ento, ficou com eles e os ama muito.
        - Que histria interessante! Que poderia ter acontecido com estas crianas? Quem os
teria abandonado? - indaguei curioso. - Epitcio, ser que no h uma pessoa que poder
me informar mais sobre o assunto?
        - Talvez Samuel saiba mais alguma coisa, ele  um socorrista desencarnado, que
est sempre pela regio.
        Fomos at ele, que gentilmente nos disse o que sabia sobre as crianas.
        - Lenita e Donizette foram abandonados de madrugada, perto da casa de Justina.
Uma camionete parou e um homem os deixou sozinhos e chorando. Escutei o homem falar:
"Fiquem aqui, filhos do co, j que no tenho coragem de mat-los. Mas para eles ser o
mesmo que tivessem morrido, porque no iro ach-los mesmo!" Depois foi embora em
disparada.
        - Lembra-se de que cidade era a camionete? - indaguei.
        Depois de esforo para recordar, Samuel falou o nome da cidade.
        - J  uma pista, agradeo, ajudou-me bastante.
        - Vai tentar encontrar os pais das crianas? - perguntou-me Samuel.  Por qu?
        - Vou tentar ach-los sim. A histria desses garotos me intriga. Talvez eles no
tenham sido abandonados pelos pais, mas raptados.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        A cidade escrita na camionete era bem longe daquela onde residiam Justina e as
crianas.
        Ficava em outro Estado. Tambm existia a possibilidade de a camionete ter sido
emplacada em outra localidade. Achando muito misterioso o abandono das crianas, resolvi
investigar. Registrei na memria as fisionomias das pessoas com quem Lenita havia
sonhado.
        Epitcio retornou  Colnia e ao seu trabalho. Justina estava bem, o socorro
espiritual dera resultado. Eu, porm, fui  cidade citada por Samuel, ao local da placa da
camionete.
        Cidade pitoresca, porm no era to pequena e no seria fcil investigar sozinho.
        Localizando um Centro Esprita, fui at l pedir informaes. Um trabalhador
desencarnado da casa soube me informar.
        - H trs anos foram raptados dois filhos de um casal. Eles so mulatos como
descreveu, talvez sejam os mesmos. Levo voc at a casa deles.
        Ao ver Marlia e Edson, reconheci-os. Descansavam aps o jantar. Resolvi ficar ali
no lar deles. Despedi-me agradecendo ao meu cicerone.
        Indaguei-os em pensamento e isto bastou para que recordassem o passado.
        Marlia disse ao esposo.
        - Onde ser que esto nossos filhos? Estaro vivos? E bem?
        - No se martirize, Marlia - respondeu Edson. - confiemos. Iremos encontr-los,
confio em Deus.
        - Quanto mais o tempo passa, mais sofro. Queria tanto rev-los!
        Marlia recordou o que aconteceu. Numa tarde, ela foi tomar banho e deixou as
crianas brincando no quintal. Ao sair do banho no os encontrou, e o porto que dava para
a rua estava aberto. Procurou os filhos pela vizinhana, mas ningum soube dizer nada.
        Apavorada, chamou a polcia. E jamais tiveram notcias deles. Ficaram
desesperados e angustiados. Mesmo trs anos depois, choravam de tristeza e saudades. O
casal teve outro filho, Edinho. Um garoto to bonito quanto os outros dois. Tambm
descobri que o nome do menino raptado no era Donizette, mas Roberto. Lenita, pequena,
tratava o irmo de Dom e Justina concluiu ser Donizette e assim o chamava.
        A casa de Marlia e Edson era grande e confortvel, de classe mdia. Edson tinha
bom emprego e ganhava bem.
        O casal, religioso, seguia com f sua crena, eram adventistas.
        Pedi a meus superiores permisso para tentar ajud-los. Para minha alegria, recebi-a
de imediato. Horcio, um amigo, que h tempo trabalha em casos difceis, viera ajudar-me.
        Agora eu sabia onde estavam os pais e onde se encontravam os filhos. O problema
era lev-los a descobrir. Optamos pelo sonho. Afastaramos da matria dormente os
encarnados envolvidos nesta histria e tentaramos conversar com eles e incentiv-los a
procurar os filhos no lugar certo. Sonhos podem ter muitos significados. Muitos levam a
srio at demais, outros nem tomam conhecimento. Iramos insistir fazendo com que, tendo
sonhos repetidos, viessem a acreditar e, assim, os levaramos a investigar. Fao, entretanto,
um alerta quanto aos sonhos. Podem ser recordaes de outras encarnaes e da atual, ou
encontros com pessoas encarnadas e desencarnadas. Pode acontecer que o perisprito saia
do corpo fsico e a pessoa recorde total ou parcialmente o ocorrido. Mesmo com sonhos
repetidos, devemos ser cautelosos ao analis-los, porque podem ser avisos de bons espritos
como de maus, ou, tambm, reflexo de um problema que aflige quem sonha.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

         Horcio ia encarregar-se dos pais e eu, de Lenita. No horrio combinado, levei
Lenita em perisprito ao lar de seus pais, enquanto seu corpo ficou dormindo na casa de
Justina. Lenita chegou encabulada, mas quando viu os pais reconheceu-os e estes a ela.
         Abraaram-se emocionados.
         - Lenita, como voc est linda! Como cresceu! - exclamou a me emocionada.
         O primeiro encontro foi rpido, levei Lenita de volta e Horcio retornou os pais aos
corpos fsicos, que estavam adormecidos. No outro dia ao acordar, Lenita comentou com
Justina:
         - Madrinha, sonhei com uma fada linda e boa que mora numa casa grande e bonita.
         Em Edson ficou somente uma lembrana de que vira a filha. Mas Marlia recordou
parte do sonho.
         Pacientes, Horcio e eu fomos sempre que possvel fazendo com que se
encontrassem.
         Porm Lenita ficou saudosa e triste e, na creche, comeou a chorar que queria a me
e o pai com quem sonhava e que moravam naquela casa bonita.
         Marlia comeou a inquietar-se com os sonhos. Passei a ficar durante o dia com ela
e tentei achar algum de seu convvio para nos ajudar. Eles no acreditavam, tornando tudo
mais difcil. Embora no aceitando muito benzees, Marlia s vezes levava Edinho para
que uma senhora que morava perto de sua casa, o benzesse. Ia escondida tanto do marido
como dos membros de sua religio. Como uma vizinha e amiga levava o filho, ela ia junto.
E, como isso fez bem ao Edinho, passou a lev-lo mais vezes.
         Dona Brbara, a benzedeira, era catlica, mas mdium. Ao benzer o menino, pude
intu-la para que dissesse  Marlia que via seus outros dois filhos vivos sadios.
         Marlia comeou a chorar e lhe contou os sonhos.
         - Dona Brbara, tenho sonhado com Lenita. Ela me aparece em sonhos sadia, bonita
e diz que o irmozinho est bem.
         - Sonhos repetidos podem ser avisos - falou Dona Brbara. - Quando sonhar
novamente pergunte  menita onde est, em que cidade.
         - Ser que posso? Em sonhos no se manda.
         - Fixe a pergunta antes de dormir. Queira saber. Tente. Marlia foi para casa
resolvida a tentar e ps-se a pensar que iria perguntar  filha onde ela estava.
         Fui ficar com Edson. Descobri que um colega dele de trabalho era Esprita. Pedi-lhe
vrias vezes que comentasse com o amigo o que estava ocorrendo. At que me atendeu,
chamou o colega para uma conversa reservada e comentou os sonhos que ele e a esposa
estavam tendo.
         - So sonhos repetidos, acordo e tenho a sensao de que realmente estive com
minha filha. O que me diz sobre isso? Que acha desses sonhos?
         Como  bom encontrar bons Espritas em nossa ajuda. O moo explicou a Edson
sobre sonhos e o aconselhou que retornassem s buscas. Que indagasse  filha, quando
sonhasse, para saber onde eles estavam.
         O casal comentou o ocorrido.
         - Isto est parecendo algo mais do que uma simples coincidncia  disse Marlia. -
Ambos recebemos o mesmo conselho.
         - Marlia, vamos tentar seguir as instrues que nos foram dadas. Quem sabe no
descobriremos nossos filhos?
         Pedi a Lenita tanto com ela acordada, intuindo-a, quanto desligada pelo sono, que
dissesse aos pais a cidade em que morava.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

         Marlia adormeceu preocupada com a pergunta.
         Levamo-los para outro encontro. Aps os abraos, Marlia indagou  filha:
         - Minha filha, onde mora? Em que cidade?
         Lenita falou e Marlia repetiu vrias vezes. Horcio a levou para o corpo
rapidamente e a acordou. Marlia despertou falando o nome.
         - Edson, acorda!
         Marlia acordou o marido, que Horcio acabara de levar ao corpo.
         - Que foi? - indagou Edson assustado.
         - Acordei falando o nome de um santo.
         - Parece que ouvi Lenita dizer este nome. Que poder significar isto?
         - Quando encarnados, temos ligados nosso perisprito ao nosso corpo fsico. O
corpo de carne  como uma roupa para nosso esprito. O perisprito sai do corpo carnal
consciente ou quando dorme. Consciente necessita aprender, ter conhecimentos, e isto deve
ser feito para ser til. Quando o corpo dorme, muitas pessoas saem, isto , o perisprito fica
preso ao corpo por um cordo. S  realmente desligado quando o corpo de carne morre, h
a desencarnao. Quando o encarnado dorme, ele pode sair sozinho ou com ajuda de outra
pessoa que pode ser encarnado ou desencarnado. Muitas pessoas saem sozinhas e vo para
lugares afins. Isto no apresenta perigo algum ao encarnado. E para muitos estes momentos
de liberdade so prazerosos e muito teis. E, para termos sempre boa proteo e ir a bons
lugares,  bom que oremos sempre, antes de dormir.
         - Amanh irei perguntar  Dona Brbara - disse Marlia. A cidade onde
         Lenita estava com Justina e tinha o nome de um santo da Igreja Catlica. Marlia
confundiu- se, achou que era o santo que os ajudaria. No acreditava nesses ttulos, mas se
era para achar os filhos tentaria.
         No outro dia cedo, Marlia foi  casa de Dona Brbara. Acompanhei-a.
         - Dona Brbara, sonhei com um santo, ou pelo menos com o nome de um santo.
         Para minha alegria, Dona Brbara concluiu:
         - Voc no sonhou com santo. No ia perguntar a sua filha onde ela est?
         No existe uma cidade com esse nome?
         - Mas  to longe daqui!
         - Marlia, seus filhos no devem estar perto, seno j teria achado.
         Marlia ficou esperanosa. No almoo, contou ao esposo a conversa que teve com
Dona Brbara. Edson,  tarde, aconselhou-se com o colega Esprita.
         - Vo at essa cidade! Tentem! Estamos perto de um feriado prolongado.
         Acredito que vocs esto se encontrando com sua filha nesses sonhos e que ela lhes
disse onde est.
         Resolveram ir. Temendo que no os achassem, levei-os para outro encontro e pedi 
Lenita que dissesse  me que os procurasse na creche. Insisti em que Marlia repetisse
vrias vezes. Ao acordar, recordou-se da creche, e concluiu que deveria procurar os filhos
em creches.
         Deixaram Edinho com os avs e viajaram. Foram esperanosos, Horcio e eu os
acompanhamos. Hospedaram-se num hotel, e no outro dia, logo cedo, foram visitar as
creches da cidade. Marlia explicava nas creches o que foram fazer.
         - Estamos procurando uma menina de seis anos e um menino de trs anos. So
mulatos e adotados. A menina chama-se Lenita.
         Na terceira creche uma resposta esperanosa.
         - Temos duas crianas como descreveu e so adotadas. Vou busc-las.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Lenita ao v-los gritou contente e correu para a me.
        - A fada com que sonho! A outra me! Choraram emocionados. A assistente da
creche telefonou para Justina que veio rpido e preocupada.
        Lenita ao ver Justina gritou contente.
        - Madrinha, estes so os meus pais. Meu pai e minha me!
        Justina levou um susto, e Marlia explicou.
        - Senhora Justina, tivemos nossos filhos raptados e foram abandonados aqui, nesta
cidade. Como eles vieram at a senhora?
        Justina falou tudo o que sabia e concluiu:
        - Que maldade! Julgamos que eram rfos ou que foram abandonados pelos pais.
Nunca poderia imaginar uma maldade dessas.
        Justina ficou feliz por terem encontrado seus pais, porm sentia deix-los. Lenita
no saa do colo da me, mas Roberto assustado no queria largar Justina. Passaram a tarde
juntos.
        Edson e Marlia foram  casa de Justina e no puderam conter o espanto, ao ver que
eles moravam numa casinha to simples e pobre. Aquela noite Lenita foi dormir com os
pais no hotel, e Donizette Roberto ficou com Justina.
        Edson teve uma idia.
        - Justina, venha conosco, mais os outros dois meninos. Vamos todos morar juntos,
nossa casa  grande e tem muito espao.
        Justina pensou muito, pediu conselhos aos patres que lhe disseram:
        - Justina, voc criou, cuidou dos filhos deles todos esses anos, agora querem
recompens-la. Eles tm posses, achamos que deve aceitar.
        Justina aceitou, desfez-se de sua casinha, acertou tudo e partiram. Logo na chegada,
Justina se decepcionou. Agrados e presentes foram para os dois, Lenita e Roberto, enquanto
que Rodrigo e Juquinha ficaram s olhando.
        - Voc, Justina, vai dormir com os dois meninos no quarto do quintal - disse Edson.
        Justina gostou do quarto, era grande e espaoso, mas no quintal. Era para l que
iriam quando a famlia recebesse visitas. E, quando a apresentavam, era como empregada.
        Escutei com tristeza Edson dizer a Marlia: No d moleza  Justina, mande-a fazer
todo o ser vio, e no deixe os dois meninos entrarem em casa.
        Como a ingratido tem gosto de fel. Justina passou a trabalhar muito, mas no se
importava, pois estava acostumada; no gostou foi do modo como tratavam seus dois
meninos.
        Assim que chegaram, a cidade toda ficou sabendo da volta dos garotos.
        Edson evitou o colega Esprita, e nem o agradeceu. Tambm evitaram comentrios
sobre o assunto.
        Disseram que foi pura coincidncia. Porm o homem que raptou as crianas, deixou
escapar entre alguns amigos:
        "No sei como os acharam, deixei-os to longe!"
        Edson ficou sabendo e fez uma denncia. O delegado o interrogou e ele acabou por
confessar. Antes de Marlia se casar, fora namorado dela, que o trocou por Edson.
        Apaixonado, no se conformou em v-los felizes. Planejou e executou o rapto. Foi
condenado e preso.
        O Natal se aproximava e Justina resolveu ir embora antes dessa data.
        Escreveu para sua ex-patroa narrando os acontecimentos.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        A me da ex-patroa de Justina gostava demais dela, sentia sua falta e no estava se
adaptando com a nova empregada. Contente em t-la novamente, sua antiga patroa
respondeu logo, mandando at dinheiro para as passagens.
        Justina, ao receber a carta, falou de sua partida a Edson e Marlia, que suspiraram
aliviados. Lenita e Roberto acostumados novamente com os pais no se importaram com a
partida da madrinha.
        Justina voltou. Seu barraco fora ocupado por outra famlia. Sua patroa acomodou-os
no quarto do quintal. Os patres gostaram dos meninos e no deixaram Justina procurar
outra casa. Em pouco tempo, estavam amando as crianas, que foram acomodadas dentro
da casa, e prometeram  Justina ajud-la a cri-los. Rodrigo no engraxava mais sapatos e
        Juquinha no foi mais para a creche.
        - Justina - disse a patroa -, estas crianas nos trouxeram alegria. Que bom ter vocs
aqui conosco!
        As duas crianas estavam felizes, e Justina, tranqila.
        Algum tempo passou. Voltei para visitar os componentes desta histria real.
Encontrei Justina feliz com Rodrigo e Juquinha. Seus patres tinham realmente encontrado
nas crianas uma razo para viver, cumpriam o que prometeram, tratavam as crianas como
se fossem netos deles. A senhora idosa amava os meninos. E todos estavam em paz e
contentes.
        Mas o lar de Edson e Marlia estava enlutado. Quando cheguei, tomavam o
desjejum e conversavam.
        - Edson - disse Marlia triste -, faz dez meses que Lenita faleceu. Levamos trs anos
para encontr-los e conosco ficou seis meses somente.
        - Tudo nossa culpa! Lenita nos disse que tinha sempre essas crises e que Justina a
curava.
        Como fomos ingratos com essa mulher! Pobre, apiedou-se de duas crianas
abandonadas e cuidou delas com amor e carinho. Talvez tenha passado fome para aliment-
los. E o que fizemos? Deus nos devolveu nossos dois filhos e nos ofereceu mais dois.
        No aceitamos!
        No tratamos bem nem Justina e nem os dois meninos. Se ela estivesse aqui, no
iramos internar nossa filha, quando teve a crise, no teria ento tomado a penicilina e no
teria morrido.
        - Fomos ingratos! - Marlia concordou. - Talvez Justina, mais cuidadosa do que ns,
soubesse que ela no podia tomar esse medicamento. No fizemos o teste.
        Mas, como decidimos, nada contaremos  Justina, em resposta s suas cartas, da
morte de Lenita. Para ela, as crianas esto bem. Depois, Edson, temos Roberto e Edinho.
        - Que Deus nos perdoe! - falou Edson profundamente triste.
        Justina sempre cuidou das crianas com amor. Lenita tinha crises, que eram curadas
com chs caseiros e alguns remdios receitados pelo mdico da creche. Justina no sabia
que Lenita no podia tomar penicilina.
        Vim a saber de notcias de Lenita. Ela estava bem num internato do Educandrio de
uma Colnia. Adaptou-se fcil  vida e a Espiritualidade.
        Como a ingratido fere o ingrato! Edson e Marlia sofriam e estavam arrependidos.
Eu esperava que tivessem aprendido a lio, porque quando aprendemos passamos a ter
conscincia e evitamos cair nos mesmos erros. Edson e Marlia cresceram em experincia.
        E esperava que a gratido passasse a fazer parte dos sentimentos do dia-a-dia deles.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

                                            O PACTO

         Guilherme e Leonora eram um casal com seus setenta anos, que no acreditavam
em religio.
         - Diziam ser catlicos, porm nunca foram praticantes. Fizeram um estranho pacto:
quando achassem que no valeria mais a pena viver, iam morrer juntos. Discutiram muito o
assunto e concluram:
         - Tudo acaba com a morte! - disse Guilherme.
         - No vale a pena padecer por doenas e nem sofrer a separao, se um de ns
morrer primeiro  concluiu Leonora.
         O casal no tinha filhos, era de classe mdia. Aposentados, possuam duas boas
casas, uma em que residiam, a outra alugavam. A famlia deles era pequena, e os mais
prximos dos quais gostavam muito, eram dois sobrinhos, pessoas boas e desinteressadas,
que os visitavam sempre. Fizeram um testamento em favor desses sobrinhos.
         Guilherme e Leonora tinham um grande afeto um pelo outro, cuidando-se com tanta
ternura que encantavam a todos que os conheciam. Fazia quase sessenta anos que viviam
juntos e sempre se entenderam e amaram com sinceridade.
         Guilherme ficou doente, estava com problemas nos rins e no corao. O mdico que
tratava deles, internou-o no hospital.
         Os dois conversaram com o mdico e quiseram saber a extenso do problema. Ele
foi sincero e disse que era grave.
         - Leonora - disse Guilherme -, acho que chegou a nossa hora.
         - Tambm acho - disse a esposa -, vamos execut-la em casa. Quando voc tiver alta
no hospital, iremos para nosso lar e l morreremos.
         J tinham em casa o veneno fortssimo que os levaria  desencarnao pelo suicdio,
mas o mdico no quis dar alta. Querendo morrer em casa, esperaram. Eles eram pessoas
boas e honestas, e sabiam do transtorno que seria o suicdio naquela clnica.
         Tinham pelo mdico uma sincera amizade e no queriam que ele, nem o hospital
ficassem prejudicados.
         A me de Leonora, Mercedes, desencarnada h tempo, veio para tentar ajud-los.
Inquieta com os planos da filha e do genro, estava fazendo todo o possvel para que
mudassem de idia.
         Anita era a esposa do proprietrio de uma livraria Esprita. Conhecia Guilherme e
Leonora, sem entretanto lhes dedicar grande amizade. Ao ter conhecimento da
hospitalizao do Sr. Guilherme, orou fervorosamente para o casal. A orao sincera  uma
doao de fluidos benficos. O casal sentiu-se melhor. Mercedes sentiu que algum orava
pelos dois.
         Atrada, foi  fonte dos fluidos e encontrou Anita. Percebeu que tinha muita
sensibilidade.
         Mercedes solicitou ajuda e ela recebeu o apelo da me aflita: "Anita, por favor,
ajude minha filha e meu genro.
         Inquieta, Anita sentiu necessidade de visitar o casal conhecido, no hospital.
         "Por que no ir se estou com vontade? Mas os conheo to pouco! Farei uma visita
rpida" - pensou.
         Pegou na livraria um exemplar do livro Reconciliao e o levou de presente ao
casal.
Aconteceu                                                          pelo esprito de Antonio Carlos
                                      Vera Lcia M. de Carvalho

            A visita foi rpida e o casal a recebeu bem. Conversaram sobre acontecimentos
triviais.
        Anita deu-lhes o livro.
        - Trouxe este livro de presente. Li e gostei, quem sabe iro apreci-lo tambm.
        O casal agradeceu e prometeu ler. Anita voltou para casa aliviada.
        Mercedes intuiu a filha para ler o livro. Pedia-lhe que fizesse a leitura. Deste pedir,
Mercedes pelo pensamento tentava transmitir  filha a vontade de fazer, no caso, de ler o
livro. Porm o encarnado  livre para atender ou no. Muitos no conseguem perceber
influncia nenhuma, alguns recebem de maneira clara, e outros, parcialmente. Leonora
atendeu o pedido feito, porm nem sequer lembrou da me desencarnada h tanto tempo.
        Olhou para o livro, pegou-o e examinou.
        - Guilherme - falou Leonora -, no tenho nada para fazer, acho que vou ler este livro
e me distrair, pois foi dado com tanto carinho. Quer que eu leia em voz alta para voc?
        - Seria bom distrair-me um pouco. Por favor, leia para eu ouvir.
        E Leonora comeou. Interessaram-se logo no comeo, chegando a ler duas, trs
vezes, os pedaos que acharam mais interessantes. Encabularam-se com a personagem
Valquria, uma deficiente mental, por ter se suicidado na encarnao anterior.
        Motivados por Mercedes, Guilherme e Leonora trocaram comentrios.
        - Guilherme, ser certo ns nos matarmos? E se a vida continuar mesmo?
        - Leonora, este livro  to lindo! Tocou-me no fundo do meu ser. Estou com medo
de me suicidar.

            ( Reconciliao  um belo romance de Antnio Carlos. (Nota da Editora)

         - Se for para sofrer mais,  melhor no concluir nosso pacto. Acho que vou telefonar
para Anita, agradecer o presente e pedir-lhe que venha conversar conosco.
         - Faa isto - disse Guilherme -, podemos pedir a ela mais explicaes sobre o
suicdio.
         Leonora fez isto. Anita prometeu ir logo no outro dia. Convidou mais duas amigas
Espritas e levaram O Evangelho Segundo o Espiritismo para eles. O casal alegrou-se com
a visita e, logo aps os cumprimentos, Leonora indagou:
         - Anita, lemos o livro que nos trouxe de presente e gostamos muito. Queremos saber
o que acontece com a alma aps a morte do corpo. E tambm saber mais sobre quem se
suicida.
         Intudas por Mercedes, conversaram por longo tempo.
         - O corpo de carne  perecvel, mas somos eternos. Desencarnamos e vamos a
lugares que fizemos por merecer. Ningum deve suicidar-se. Ao provocar nossa prpria
morte, lesamos terrivelmente nosso perisprito. No existe na Espiritualidade regra geral.
Cada caso  um caso, e nem sempre a reao  a mesma para uma determinada ao. Mas o
suicida sofre muito.
         Leonora e Guilherme acabaram chorando e contaram s trs senhoras o pacto que
fizeram.
         - O pacto est desfeito - disse Guilherme. - No quero mais me matar.
         - Nem eu! - disse Leonora.
         Anita e as amigas passaram a ir todos os dias ao hospital, para conversar com o
casal.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Guilherme e Leonora passaram a ler as obras Espritas, compreenderam o ato
terrvel que iam fazer, tiveram medo e no pensavam mais em suicdio. Encontraram no
Espiritismo conhecimentos e consolo. Guilherme, com os passes que as trs senhoras
caridosamente lhe administravam, melhorou sensivelmente e recebeu alta do hospital.
        O grupo, Anita e amigas, continuou a visit-los em casa, at que Guilherme
sentindo-se bem pde freqentar o Centro Esprita. Leonora e ele encantaram-se com o que
aprenderam e fizeram um outro pacto. De terem pacincia e sofrerem com resignao.
        Quem desencarnasse primeiro iria ser obediente, ficar no lugar aonde fosse levado e
esperar pelo outro. Quem ficasse, faria o mesmo, esperaria a desencarnao com pacincia
e se prepararia para a morte fsica.
        O livro Esprita  grande consolo, fonte de conhecimentos e Amor. Como a este
casal, muito bem tem feito!

                                         A VINGANA

        Lola sempre trabalhou muito. rf aos vinte e um anos, herdou dos pais uma
pequena loja.
        Dedicou- se ao mximo, ampliou o comrcio e, no decorrer dos anos, passou a ter
vrias lojas. Tornou-se rica. Era filha nica, mas tinha um irmo de criao, apelidado
Preto. Os dois sempre se deram bem e gostavam muito um do outro.
        Preto sempre trabalhou com ela, ajudando-a muito, mas tambm foi recompensado
financeiramente.
        Lola nunca se interessou por ningum at conhecer Walter, muito mais moo que
ela. Tinha na poca quarenta e dois anos, e ele, vinte e um anos. Walter fez de tudo para
conquist-la.
        Casaram e tiveram dois filhos.
        Vinte anos passaram, estando ele jovem ainda, e ela, nem tanto. Walter ento
conheceu Sara e apaixonou-se por ela. Para ficar livre da esposa, porque sabia que ela no
lhe concederia a liberdade e nem lhe daria nada financeiramente, planejou mat-la. Com o
plano traado nos mnimos detalhes, esperou uma oportunidade para execut-lo. Achando
que era chegada a hora, Walter, certa noite, deu  esposa uma bebida alcolica com
cocana. Logo depois de beber, Lola sentiu-se mal, e ele no a acudiu.
        Quando percebeu que ela tinha morrido, chamou o mdico, j muito idoso, amigo
da famlia, para examin-la.
        O mdico, acreditando em Walter, que disse que Lola teve um enfarte, deu um
atestado de bito em que a causa era uma parada cardaca. E foi realmente, porm
provocada por uma overdose. Walter fez por um tempo o papel de vivo inconsolvel.
        - No me conformo em perder minha Lola! dizia a todos. - Que ser de mim e dos
meninos sem ela?
        Lola desencarnou e ficou no corpo at este quase apodrecer. Desesperada no se
conformava com a morte do seu corpo fsico. At que com ajuda de socorristas
desencarnados desligou-se do corpo morto. Mas, por estar muito revoltada e com dio, no
pde ser socorrida e ficou a vagar. Aos poucos entendeu que desencarnara e, o mais grave,
o porqu.
        "Walter no podia ter feito isso comigo. Por que no pediu a separao? Queria
mesmo era o meu dinheiro, sempre quis. Mas podia ter tido um pouco de considerao, sou
a me dos filhos dele. Odeio-o, tenho muito dio!"
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

         Conseguiu voltar a seu ex-lar. Walter, depois de algum tempo vivo, passou a
namorar Sara e logo se casaram. E foi quando estavam recm-casados que Lola os
encontrou, vivendo com seus dois filhos no seu antigo lar. Revoltou-se ao extremo e
resolveu se vingar.
         Vagando pelo Umbral, soube que em certos lugares havia escolas onde ensinavam a
vingar. Foi e pediu para freqentar. Questionada, Lola teve que explicar o porqu de querer
se vingar.
         - Casei de boa-f e ele me iludiu. Depois de tanto tempo de dedicao, ele arrumou
uma amante. Querendo tudo o que eu conquistei com meu trabalho, assassinou-me e agora
est feliz casado com ela, desfrutando de tudo o que eu possua.
        (- Esses lugares no Umbral tm muitos nomes e so de vrios tipos, conforme a regio
onde se situam).
        (- Normalmente, esses lugares so organizados e, em nome da justia deles, ajudam a
desencarnados a se vingarem, mas sempre procuram saber o porqu. Porm, normalmente, tudo 
aceito e a vingana  sempre exaltada. (N.A.E.)
         Todos da assemblia prestaram ateno e foram unnimes na deciso. -  justo seu
pedido. Est aceita.
        Assim, por dois anos, Lola passou a freqentar as reunies e aprendeu rpido a
obsediar, a vampirizar e a fazer encarnados ficarem doentes, enfim, a vingar-se.
        Apta, agradeceu a todos daquele estranho lugar e instalou-se no seu antigo lar.
        Passou a vampirizar Walter, isto , a sugar suas energias e fazer com que ele tivesse
terrveis pesadelos, nos quais lembrava o seu crime. Mas seu dio maior era por Sara.
        Obsediou-a fazendo-a ficar doente, contaminada com doenas.
        Preto, o irmo de criao de Lola, desencarnou. Ela o ajudou, desligou-o do corpo e
cuidou dele, levando-o para seu ex-lar. Quando ele entendeu que tinha desencarnado,
passou a ajudar Lola na sua vingana.
        - Que maldade fizeram com voc, Lola. E eu no desconfiei de nada!
        - Nem eu! Walter pensa que acabei, s porque matou meu corpo, mas continuo viva
e o farei pagar bem caro o que me fez.
        Os dois logo tornaram a vida do casal insuportvel.
        Eram brigas, doenas, agonias e infelicidades.
        Lola sempre trazia para seu ex-lar espritos que vagavam, de preferncia doentes, e
com isso prejudicava os encarnados, porque os infelizes desencarnados sugavam energias
dos encarnados e tambm transmitiam-lhes o que sentiam. Um dia, trouxe uma moa
desencarnada que encontrou na rua. Era Melina, de vinte e oito anos, e desencarnara
tambm assassinada, mas seu assassino estava na priso. No era vingativa, estava porm
desorientada. Logo que Lola e Melina chegaram, os dois adolescentes comearam a brigar
violentamente. Lola tudo tentou para que os filhos parassem, mas s o fizeram aps
trocarem socos, tapas e muitos desaforos. Melina disse a Lola:
        - Lola, eu j estive certa vez num Centro Esprita e l me disseram que
desencarnados como ns, sem preparo ou entendimento, e que vagam, prejudicam os que
amam se ficam perto deles. Voc est aqui para se vingar do ex-marido e de sua atual
esposa, mas vejo que est prejudicando e maltratando seus filhos. Com tantos fluidos
nocivos que traz a esta casa, os garotos s podem se sentir mal. Como tambm se sentem
infelizes com as desavenas do casal; no se esquea que Walter  o pai deles. Os meninos
esto nervosos e com razo.
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

         - J pensei nisto, Melina, e talvez voc tenha razo. Mas necessito vingar. Na Escola
de Vingadores no me ensinavam o que fazer para que minha atitude no atingisse meus
Filhos.
         Disseram que nada  perfeito e que teria de me conformar com a situao.
         - Voc faz os dois inimigos sofrerem, sofre tambm e acaba fazendo os seus dois
filhos inocentes sofrerem.
         Ser que compensa a vingana?
         - Claro que sim - respondeu Lola irada.
         Preto ficava o tempo todo com Sara, a quem chamava de "Sarna". A ordem era para
no deix-la orar e nem ir procurar ajuda no Espiritismo.'

         (- Nem sempre as brigas entre irmos so causadas pelos desencarnados. Isso ocorre nesta
histria. Brigas de qualquer tipo devem sempre ser evitadas, e irmos devem aprender a se amar e
respeitar. (N.A.E.)

         (- Os desencarnados no conseguem impedir o encarnado de orar e nem de procurar
ajuda, se ele realmente quer. O livre-arbtrio de cada um  lei de Deus. Eles tentam fazer muitas
coisas para impedir mas se o encarnado quer, ele ora e procura ajuda. Porm muitos imprudentes
no tm o hbito de orar e nem de procurar ajuda. Normalmente, Espritos vingadores temem a
fora da orao sincera, que  um pedido de auxlio que no fica sem resposta. Temem e odeiam o
Espiritismo que os combate de frente, pois l o dio deles no encontra ressonncia, mas sim o
Amor que os faz mudar. Como no querem isso e nem que interfiram no andamento de seus planos
de vingana, evitam a Doutrina. E tambm sabem que o encarnado que procura auxlio no
Espiritismo, com confiana e f, encontra ajuda. (N.A.E.)

        (- Isto foi possvel, porque, nesse lar, os encarnados no tinham religio sincera, nem o
hbito de orar, e se afinavam em pensamentos e atos com Espritos inferiores. Pode acontecer de
desencarnados maus tentarem perturbar pessoas boas e que oram, porm  muito difcil
conseguirem. Pessoas boas sempre encontram nos bons, encarnados e desencarnados, a ajuda
necessria. (N.A.E.)


        Melina, embora fosse uma desencarnada que vagava, sentiu pena de todos os
envolvidos.
        Porque era me, sentiu d dos jovens. Porm, com medo da amiga, no falou mais
nada.
        Passou ento a freqentar a casa como convidada de Lola.
        Uma vez Melina chegou na casa de Walter, e os dois Lola e Preto, no estavam.
        Intuiu Sara a ir a um Centro Esprita localizado perto de sua casa. Sara estava
adoentada, tinha dores pelo corpo todo e j comeava a se intoxicar pelos muitos remdios
que tomava.
        "Sara - disse Melina -, por que no busca auxlio? Com tantos acontecimentos
estranhos, no acha que  hora de ir buscar ajuda com pessoas que oram e auxiliam outras?
Aqui perto h um Centro Esprita. Os Espritas ajudam muito a quem sofre. V l, v!"
        ", pensou Sara, no oro h tanto tempo. Talvez o que esteja faltando nesta casa
seja orao sincera. Vou pedir ajuda, quem sabe a esteja a soluo. Necessito de auxlio,
sofro tanto. Vou l.."
        Nem trocou de roupa, saiu rpido. Melina no foi, teve medo.
Aconteceu                                                         pelo esprito de Antonio Carlos
                                   Vera Lcia M. de Carvalho

        Lola e Preto chegaram e encontraram Melina encabulada. Lola logo desconfiou e
indagou:
        - Onde est Sara? Para onde foi a esta hora da noite?
        - No sei, cheguei e ela no estava - respondeu Melina.
        - Mentirosa!  melhor dizer aonde ela foi e por que voc no foi junto.
        Os trs discutiram.
        Sara foi, envergonhada, ao Centro Esprita. Era uma tera-feira  noite, vinte horas e
trinta minutos. Chegou, bateu na porta, insistente. No Centro Esprita estava havendo uma
reunio da diretoria, porm abriram a porta e atenderam Sara, que pediu chorosa:
        - Senhores, por favor, me desculpem. Estou desesperada, necessito de auxlio.
Minha vida est um caos. Foi ento que lembrei dos senhores, sei que ajudam a tantos.
        Foi feita uma pausa na reunio. Duas senhoras conversaram com Sara e a
acalmaram.
        Levada  sala de passes, o grupo reuniu-se em sua volta e lhe deu um passe.
        Os trabalhadores desencarnados da Casa tambm se reuniram para o devido auxlio.
Foram ao lar de Sara e l encontraram em plena discusso Lola, Preto e Melina. Cercaram-
nos e pela fora magntica os levaram. Eles s se deram conta quando j estavam no Centro
Esprita.

        (- Espritos ignorantes e perturbadores tm o costume de dizer que o Espiritismo faz o mal,
embora saibam o bem que ele faz. Passam medo em desencarnados que vagam ou que lhes so
subordinados, para eles no irem a Centros Espritas e, l, serem auxiliados. Muitos desses
desencarnados acreditam e temem o Espiritismo, pensando que nos Centros sero maltratados. Na
verdade, so mais ajudados do que pensam. (N.A.E.)

        - Por favor - disse Melina  equipe -, quero, se possvel, ajuda. Cansei de vagar e
fazer maldades. Quero estar com vocs e aprender a ser boa.
        - Miservel! - exclamou Lola com raiva. Traidora!
        Melina foi separada e levada a outra parte do Centro. H no Plano Espiritual de
quase todos os Centros Espritas uma construo de material igual ao do perisprito, onde
so abrigados os socorridos. So pequenos hospitais, lugares de orientaes ou Postos de
Socorro.
        Melina, querendo ajuda sincera, recebeu a orientao dos trabalhadores da Casa;
depois de alguns meses, estava bem e j ajudava nas tarefas da Casa.
        Lola e Preto, revoltados e com medo, ficaram em outra parte, num local especial
para desencarnados desequilibrados, onde esperariam at o prximo trabalho de
desobsesso para serem orientados.'
        Aps o passe, quando limparam Sara dos fluidos nocivos, ela voltou para casa,
sentindo-se melhor e prometeu retornar sempre. De fato, Sara passou a ir l com
freqncia. Falou com tanto entusiasmo, que Walter e os filhos quiseram ir tambm. Foram
e gostaram. Os quatro melhoraram e muito. Sem a presena de Lola e Preto com eles, agora
interessados em orar e aprender o Evangelho, os trs, Sara e os dois adolescentes, tiveram
paz e tudo aos pouco foi se encaixando naquele lar.

        (- Para imobilizar desencarnados rebeldes, os Espritos socorristas utilizam, em muitos
lugares, cordas ou correntes plasmadas mental mente, e que so constitudas de matria
semelhante  do perisprito. Em outros, como em quase todos os Centros Espritas, ficam eles em
Aconteceu                                                       pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

cmodos de onde no conseguem fugir, porque, mesmo que esses Espritos saibam atravessar as
paredes do Centro, no conseguem sair desses lugares, que so construdos tambm de matria
anloga  do perisprito. Podem, ainda, esses desencarnados ficarem imobilizados pela fora
mental, ou foras magnticas dos trabalhadores do Bem, no conseguindo se libertarem sem ajuda.
Nos Centros Espritas, so depois liberados para a incorporao, no trabalho de ajuda e
orientao. No ficam presos por maldade, mas  espera de ajuda. Se no houvesse esses recursos,
no ficariam e perderiam a oportunidade de aprenderem e serem orientados para o Bem. (N.A.E.)

        Walter, ao escutar os ensinamentos dos orientadores da Casa Esprita, passou a
sentir remorso pelo seu crime. Mas isso no foi o suficiente para que confessasse e pagasse
perante a lei terrena. Tornou-se quieto e triste. A reao do seu ato um dia viria, nesta
encarnao ou em outra.
        Lola e Preto, quando presos, comearam a brigar tanto que tiveram de ser
separados. No quarto, cela ou cmodo em que estavam, ouvia-se msica suave e, em
intervalos, uma leitura edificante. No comeo detestavam aquilo, mas aos poucos os fluidos
do local os acalmaram e passaram a prestar ateno no que ouviam.
        No dia e horrio marcados para a reunio, foram levados  sala onde encarnados e
desencarnados estavam para ajud-los. Eles estavam calmos e j queriam ajuda, porm
muitos no procedem assim, continuando revoltados.
        Pela incorporao os dois receberam orientao e foram levados para um Posto de
Socorro, de que gostaram e onde ficaram. Quando levados a Postos de Socorro, os
desencarnados podem sair e muitos no ficam e voltam aos lugares onde estavam. Mas
Lola e Preto reconheceram que agiram errado e quiseram o auxlio oferecido, terminando
assim uma vingana com a ajuda e orientao de um Centro Esprita e dos Espritas.

                                          O CASAMENTO

        Leonardo estava estagiando no Departamento em que eu trabalhava. Era muito
gentil e sempre alegre. Naquele dia, ao v-lo preocupado e calado, indaguei querendo ser
til:
        - Posso ajud-lo, Leonardo? Algo o preocupa?
        - Agradeo. Realmente estou preocupado. Por compromisso do passado, estamos,
outras duas pessoas e eu, empenhados em reparar erros e nos reconciliarmos.
        Elisa e Ranulfo, j encarnados, prometeram se casar e me receber por filho. Mas os
dois foram separados pelo pai de Elisa, Sr. Orlando, que no quer o casamento. Se os dois
se separarem mesmo, estaremos perdendo uma oportunidade de realizar nossos planos.
        - Aproveitemos estes minutos que temos de folga e sentemos aqui para conversar.
Conte-me tudo.
        Leonardo e eu caminhamos para um pequeno jardim situado no Departamento,
sentamos num confortvel banco. Leonardo comeou a falar.
        No sculo passado, estvamos encarnados os quatro, Elisa, Ranulfo, Sr. Orlando e
eu. Morvamos numa pequena vila. O Sr. Orlando era dono de muitas terras e pai de Elisa.
        Eu era lavrador, pobre e apaixonado por Elisa, que amava Ranulfo, um pobre
comerciante. Os dois se encontravam s escondidas. Descobri porque passei a segui-la. Sr.
Orlando queria que a filha se casasse com um homem rico, fazendeiro da regio.
Apaixonados, Elisa e Ranulfo combinaram fugir. Sofrendo e despeitado, procurei o Sr.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

Orlando, contei a ele os planos dos dois e finalizei dizendo que no dia seguinte, s oito
horas, iriam fugir, encontrando-se na Casa do Bosque.
        "Se voc estiver mentindo, eu o mato!" - respondeu o Sr. Orlando com dio.
        "No estou mentindo e, se no quiser que sua filha fuja, vai l e a impea!"
        Sr. Orlando seguiu a filha, logo que ela saiu de casa. Segui os dois com cuidado
para que no me notassem. Ao verificar que era verdade, Sr. Orlando matou friamente
Ranulfo, com dois tiros de espingarda, na frente de Elisa, que ficou parada, apavorada sem
conseguir dizer nada. O pai a levou de volta para casa. O crime teve Elisa e eu de
testemunhas; ela no denunciaria o pai e nem eu iria contra um senhor rico e importante.
        O corpo de Ranulfo s foi encontrado dias depois, e sua morte foi tida como
acidente. Deduziram que deveria ter sido morto numa caada, por engano, j que ele no
tinha inimigos e era querido por todos. Ningum sabia do romance dos dois. Sr. Orlando
nada comentou sobre o corrido e eu fiquei bem quieto no meu canto, ainda mais porque
recebi a ttulo de favor prestado uma importncia em dinheiro. Elisa, porm, no falou
mais, ficou em estado de choque, ausente, olhos parados, alimentando-se pouco e s o que
lhe dessem a boca.
        A situao de Elisa me deixou triste, mas aliviado por ela no estar nos braos do
meu rival. Aproveitando a viagem de seu pai, fiz-lhe uma visita. Ela estava na varanda de
sua casa. Fiquei abalado ao v-la, pois parecia outra pessoa: magra e profundamente
abatida. A empregada me levou at ela e recomendou:
        "Seja rpido, Dona Elisa no gosta de visitas. Nunca soube que era amigo dela. Vou
lhe trazer um caf."
        Deixou-me sozinho com ela, aproveitei e confessei-lhe minha traio.
        "Perdo, Elisa! Seguia voc sem que desconfiasse e descobri seus encontros com
Ranulfo, como tambm que ia fugir e contei ao seu pai. Fiz isso porque sempre a amei e a
amo. Peo-lhe que me perdoe, no pensei que ia sofrer tanto assim."
        Quando comecei a falar, Elisa me olhou, seus olhos brilharam de dio e rancor.
Quando terminei, disse-me baixo, quase num sussurro:
        "Miservel! Nunca o perdoarei e nem o amarei. Verme. Saia de perto de mim, co!
 pior do que o diabo!"
        Suas palavras magoaram-me profundamente, e percebi ento o mal imenso que lhe
fiz.
        Como no sa, ela se levantou e entrou. Fui embora e no tive mais sossego, no
conseguindo esquecer suas palavras e sua expresso sofrida.
        Elisa, enfraquecida, foi definhando, recusando a se alimentar. O Sr. Orlando,
desesperado, ao ver a filha naquele estado, arrependeu-se e lhe pediu perdo vrias vezes,
ela porm nada lhe respondeu. Acabou desencarnando. Ao saber da morte dela, desesperei-
me e tomei veneno, o que me levou  desencarnao pelo suicdio. Sr. Orlando tambm
desencarnou logo. Todos ns sofremos muito. Ranulfo por no ter perdoado seu assassino.
        Elisa, porque, embora realmente doente, no lutou para permanecer encarnada,
desejando a desencarnao e, tambm, por no ter perdoado o Sr. Orlando pelo seu crime.
E eu, que acabei me suicidando.
        Mas a misericrdia do Pai  infinita, no condena o imprudente a sofrimentos
eternos.
        Fomos socorridos e orientados pelos bons espritos que na sua tarefa de Amor
auxiliam sempre a irmos que se atrasam ou estacionam na estrada do progresso.
Entendendo nossos erros, fizemos as pazes. Sr. Orlando arrependeu-se sinceramente, e
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

novamente quis ser pai de Elisa. Reencarnou primeiro, depois ns trs. Sr. Orlando muito
trabalhador conseguiu ficar rico novamente pelo seu esforo e trabalho. Elisa veio a ser
outra vez sua filha. Agora ele quer que a filha case com um moo rico, um sobrinho que
estima muito. Elisa, porm, conheceu Ranulfo e o amor floresceu em ambos. Eu tambm
reencarnei na mesma poca que Elisa, mas para dar valor  vida fsica desencarnei, e aqui
estou fazendo planos de voltar como filho amado dos dois.
        Fui filho de uma das empregadas da fazenda do Sr. Orlando. Minha me, Angela, 
muito boa e dedicada; foi me solteira e me amou muito. Nunca vim a saber quem foi meu
pai, pois ela se recusava a falar sobre esse assunto. Depois, no me fez falta, sempre tive
muito carinho. Morava com meus avs e era a alegria deles. Quando desencarnaram, fiquei
sozinho com ela. Desde pequeno, estava sempre doente, era fraco. Tinha a mesma idade de
Elisa. Sempre fomos amigos, e tambm fui amigo de seu irmo Mateus, mais novo que ns
dois anos. Quando estava mocinho, minha me preocupou-se achando que estava
enamorado de Elisa. Disse-lhe que no, mas descobri que era verdade, que a amava.
        Escondi esse amor, porque sentia que Elisa tinha s amizade por mim.
        Uma vez, tive uma crise mais sria, fiquei muito doente, permanecendo dias no
leito. Dona Aurora, me de Elisa, senhora muito boa, levou-me  capital para que fosse
examinado por especialistas e fizesse vrios exames. Voltei da capital todo animado com os
novos remdios e esperanoso em sarar e nem notei a tristeza de Dona Aurora.
        Comecei a ter muitas crises seguidas, minha me cuidou de mim com carinho e
muita dedicao. No pude levantar mais do leito, sentia dores e muita fraqueza.
        Desencarnei pela doena sria que tinha no corao.
        Minha me sentiu muito minha desencarnao, porm resignada aceitou e fez tudo
para me ajudar do lado de c. Continuou a trabalhar na casa-sede da fazenda, o que faz at
hoje.
        Logo aps eu ter desencarnado, Dona Aurora tambm veio para o Plano Espiritual e
pela sua bondade e f est muito bem. Eu, tambm, desta vez aproveitei a oportunidade
abenoada da reencarnao. Sofri resignado, aprendi a dar valor ao corpo fsico e voltei
sem erros. Pude, assim, ser socorrido. Agora estudo e trabalho tentando ser til e
aprendendo sempre. Elisa foi estudar na capital, e escolheu Enfermagem, profisso que
sempre gostou. Foi, ento, que conheceu Ranulfo, um mdico boliviano que trabalha
exercendo com amor sua profisso. Amam-se. Esperava que casassem e me recebessem por
filho. Mas o Sr. Orlando no quer e parece que os separou.
        Leonardo calou-se e suspirou.
        - Quem sabe ns possamos uni-los! exclamei.
        - Ns?! Quer me ajudar?! - Leonardo disse contente.
        - Se quiser minha ajuda, irei com prazer ajud-los.
        - Claro que quero! S que no sei o que fazer.
        - Pediremos permisso e iremos para l. Sabendo o que ocorre, poderemos tentar
unir seus pais, j que se amam tanto.
        - Agradeo!
        Horas depois, estvamos na fazenda. Encontramos Elisa em seu quarto, triste,
chorosa, e Angela consolando-a. Leonardo abraou sua me; ela no o sentiu, mas lembrou-
se do filho com saudades. Porm nada disse, estava empenhada em ajudar Elisa a quem
amava como filha.
        - Angela, no sei por que Ranulfo foi embora - disse Elisa, toda queixosa. 
Estvamos to felizes! Estou de frias e ele veio comigo passar uns dias, conhecer a
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

fazenda e todos vocs. E, de repente, vai embora assim, sem conversar comigo,
aproveitando que eu estava na casa do meu irmo. Despediu-se por um bilhete.
        Sacudiu um pedao de papel. Era o bilhete onde ele dizia somente que ia embora e
que o desculpasse. Leonardo virou-se para mim e disse:
        - Tambm no entendo o que aconteceu.
        De repente, Angela sentiu-se mal. Elisa correu para acudi-la, ns tambm.
        Teve um desmaio, mas voltou logo a si. O mdico foi chamado e, aps examin-la,
disse que estava estafada e necessitava fazer alguns exames. Ao examin-la, vi que tinha
um probleminha no corao. No era grave, mas necessitava de cuidados.
        Estvamos, Leonardo e eu, necessitando resolver a questo que nos fizera vir quela
casa: o futuro dos pais dele. No quis que Angela ficasse sozinha, ento lembrei- me de
Rui, um amigo que at bem pouco tempo era um socorrido e que com vontade passou a
servir, e aprendia com muito interesse. Fui busc-lo. Veio contente, porque sabia que ia
fazer algo diferente e com isso aprenderia outras formas de ajuda.
        Chegando  fazenda, apresentei Rui a Leonardo e mostrei Angela, que estava
dormindo ao lado de Elisa, pois resolvera pernoitar ali para que a amiga no ficasse
sozinha. Angela estava em sua casa, morava numa casa ao lado da casa-sede.
        Ao v-la, Rui empalideceu.
        - Meu Deus!
        Olhou para Leonardo examinando-o e indagou.
        - Voc  filho dela?
        - Sou!
        Rui chorou. Observei-os e reparei que eram parecidssimos. Leonardo e eu ficamos
quietos, respeitando nosso amigo, mas logo se refez e explicou.
        - Desculpem-me.  que j a conheo. Conheci-a quando foi  capital para trabalhar
de domstica. Era vizinho da casa onde ela se empregou e tudo fiz para conquist-la. No
por que gostasse dela, mas para me divertir.
        Angela acabou cedendo. Ao saber de sua gravidez, disse-lhe horrores e que no
assumiria a criana. Ela voltou para a fazenda e nunca mais soube dela e da criana. Agora
a reencontro. Voc Leonardo, deve ser a criana que desprezei.
        Rui fez uma pausa, Leonardo o examinou. Pareceu-lhe estranho encontrar o pai
daquela maneira. Rui virou para ele e disse comovido:
        - Perdo! Peo-lhe perdo. No soube aproveitar minha encarnao. Tive uma
existncia de farras, de descuidos, arruinei meu corpo, desencarnei e sofri muito. Perdi a
oportunidade de ser pai de uma pessoa maravilhosa como voc.
        Perdoe-me!
        - Perdo! - Leonardo disse encabulado, estendendo a mo a Rui.
        Abraaram-se. Tratei de descontra-los.
        - Rui, Leonardo e eu temos um trabalho a fazer e queremos que voc fique com
Angela e cuide dela.
        - Farei isto com prazer.
        Leonardo e eu fomos tentar descobrir o que levou Ranulfo a ir embora.
        Sondamos Sr. Orlando e, pelos seus pensamentos, verificamos que de fato ele
queria que Elisa se casasse com um sobrinho dele. Quando ela falou ao pai que estava
namorando, ele contratou um detetive para seguir Ranulfo e investigar toda sua vida. O
relato do detetive estava na mesinha de seu escritrio. Ranulfo, quando cursava a
Universidade, havia sido preso sob suspeita de traficar drogas e foi libertado sob fiana.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

Um jornal da poca publicou sua foto junto com a de outros traficantes e tudo isso estava
no relatrio.
         Acompanhando os pensamentos do Sr. Orlando, vimos o encontro dele com
Ranulfo. Ele chamou o moo para conversar no escritrio, mostrou-lhe o relatrio e disse:
         "Voc no  o marido que pretendo para Elisa. Quero que desista dela e v embora.
Se no fizer isso, chamo a polcia, mostro a eles estes documentos e ao revistar seus
pertences encontraro drogas e voc ser preso. Aqui no ter seu pai para solt-lo, e aviso-
o que tenho influncia bastante para que apodrea na cadeia. Deve partir j!"
         Ranulfo ficou a escutar quieto, nada respondendo. Saiu do escritrio e foi para seu
quarto onde arrumou seus pertences e escreveu o bilhete. Ao sair do quarto, um empregado
aguardava para lev-lo  estao ferroviria, onde pegaria o trem que o levaria  capital.
         - Leonardo, vamos ver Ranulfo.
         Encontramo-lo na capital, no quarto da penso em que morava. Pensava triste e
distrado nos acontecimentos. Acompanhamos seus pensamentos. Ranulfo era de uma
famlia de posses e importante. Tinha s um irmo mais velho do que ele. Estava com treze
anos, e seu irmo com dezoito anos, quando sua me desencarnou, e o pai, logo em
seguida, se casou novamente. A madrasta era muito mais nova que o pai, e gostava de luxo
e futilidades.
         O irmo, dois anos depois, se casou e ele ficou sozinho com o pai e a madrasta. Aos
dezoito anos, passou na Faculdade de Medicina e a madrasta, que antes o ignorava, passou
a trat-lo melhor e tudo fazer para seduzi-lo. Ranulfo contou ao irmo; ele lhe falou que
com ele ocorrera da mesma forma e que tinha sido amante dela.
         Arrependido, casou-se para se afastar da esposa do pai.
         Ranulfo ameaou falar ao pai o que acontecia, mas ela, esperta, antecipou-se e
contou ao marido o que lhe convinha: que Ranulfo a perseguia com propostas indecentes. O
pai acreditando na esposa, por quem estava apaixonado, expulsou Ranulfo de casa e lhe
disse que no ia mais lhe dar dinheiro. O irmo nessa poca foi residir fora do pas e no
estava em condies de auxili-lo. No querendo parar de estudar e para custear suas
despesas, comeou a entregar drogas e acabou preso. O pai, com o escndalo, soltou-o
pagando a fiana e passou a lhe dar uma mesada, mas ele no poderia ir mais a sua casa e
nem ir v-lo.
         Ranulfo arrependeu-se amargamente.
         - Por quanto tempo esse meu ato impensado ir me perseguir?  indagou triste.
         Leonardo chegou perto de Ranulfo e disse, a fim de que o jovem mdico recebesse
em forma de pensamento.
         - Covarde! Voc deveria ter enfrentado a situao! Por que no contou tudo a Elisa?
Por que fugiu como um crimimoso?
         Ranulfo comeou a se arrepender de ter ido embora e pensou: "Elisa no merecia
isso, eu deveria ter aproveitado a oportunidade e contado tudo a ela. Tive medo porque ela
 muito honesta e detesta drogas."
         Voltamos  fazenda. Intumos Elisa, pedindo que escrevesse a Ranulfo. Ela nos
atendeu e escreveu uma longa carta, pedindo explicaes e dizendo que o amava.
         Quando Ranulfo recebeu a carta, ficou emocionado Teve, ento, a certeza de que a
amava demasiado e que deveria lutar por esse amor.
         "Vou voltar  fazenda e explicar tudo. Se ela no me aceitar, pelo menos tentei. Se
me perdoar, serei o homem mais feliz do mundo."
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Voltou naquele mesmo dia. Chegando  cidadezinha onde era a parada do trem,
desceu e hospedou-se num hotel. Escreveu um bilhete a Elisa, pedindo que se encontrasse
com ele no local onde estava hospedado. Pediu um garoto que trabalhava no hotel que
entregasse o bilhete, recomendando:
        - V  fazenda e entregue a Elisa ou a Angela. Somente para uma das duas.
        O garoto foi contente, porque recebeu uma boa gorjeta. Na fazenda, o garoto
perguntou por Elisa e esta a atend-lo recebeu o bilhete, que a deixou muito feliz.
        Esperanosa, arrumou-se e foi em seguida encontrar-se com Ranulfo, na cidade.
        - Elisa - disse ele -, perdoe-me. Parti sem coragem de me despedir. Ao receber sua
carta, entendi que estava errado e voltei. Necessito falar com voc muitas coisas.
        Sentaram-se num banco da praa e Ranulfo lhe contou tudo. Os acontecimentos de
estudante e a conversa com o pai dela. Elisa no comeo escutou tranqila, mas ao saber o
que o pai fizera, indignou-se. Porm escutou calada. Quando o moo terminou, ela falou:
        - Eu sabia o que tinha ocorrido com voc. Quando seu primo o visitou no ano
passado, falou-me sobre isso. No comentei com voc para no encabul-lo. Achava que
um dia voc iria me falar.  claro que o perdo. O que fez foi errado, mas no  por isso
que dever pagar a vida toda. Quanto a meu pai, sei que ele quer que me case com meu
primo.
        Mas nem ele, nem eu queremos isso. Meu pai ter de se conformar. Voc no
deveria ter cedido  sua chantagem. Vamos falar com meu pai e agora. No tenha medo,
defenderei voc; sei lidar com ele.
        Foram esperanosos  fazenda. Entraram de mos dadas na casa. Sr. Orlando levou
um susto e Elisa falou alto.
        - Papai, Ranulfo e eu vamos nos casar. O episdio da priso dele foi explicado. E o
senhor no ouse mandar prend-lo. Eu o defenderei. Se fizer algo contra ele, no mais me
ver. Queira ou no, vamos nos casar!
        Foi uma grande discusso.
        Elisa e Ranulfo foram se hospedar na casa do irmo dela, que morava perto com a
esposa.
        Angela aborreceu-se muito com os acontecimentos. Ns a acalmamos com passes e
ela adormeceu. Logo aps, desprendeu-se do corpo, saiu em perisprito e veio encontrar-se
conosco, que estvamos na varanda da casa sede.
        ngela, ao ver Leonardo, correu para ele, abraando- o e beijando-o.
        - Leonardo, meu filho, que saudades! Veio me ver?
        - Sim, vim para v-la e ajudar nossa Elisa.
        - Que bom! Fico mais tranqila.
        - Mame, quero que se cuide.
        - Certamente.
        Foi ento que nos viu, e Leonardo tratou de me apresentar.
        - Este  meu amigo Antnio Carlos. Cumprimentamo-nos. Olhou bem para Rui e o
cumprimentou.
        - Boa noite!
        - Angela, no me reconhece? Sou Rui.
        - Sim. Como est?
        - No me guarda rancor? Fiz a voc tanto mal. Voc me perdoa? J contei tudo a
Leonardo e ele me perdoou.
        - Se ele o perdoou, tambm o perdo. Erramos igualmente.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        - Mas voc cuidou do nosso filho - disse Rui.
        - E tive o amor dele - respondeu ngela, tranqilamente.
        Ficamos em silncio por um momento. Ento, iniciei uma conversao do interesse
de todos.
        - Mame - disse Leonardo -, reencarnarei como filho de Elisa e Ranulfo e serei
como seu neto.
        - Como fico feliz!
        Depois deste encontro prazeroso, Angela voltou para seu corpo adormecido.
        Tambm retornamos a nossos afazeres. No dia seguinte, estaramos ali para
participar dos acontecimentos, tentando ajudar o casal. Rui voltou feliz.
        - Antnio Carlos, como Deus  bom! Ao atender seu pedido, para ajud-los, no
sabia que iria encontrar pessoas que prejudiquei, pedir-lhes perdo e ser perdoado. Como o
perdo sincero nos faz bem!
        No dia seguinte, Sr. Orlando recebeu uma carta de seu sobrinho, comunicando-lhe
que ia casar-se com uma moa pobre e honesta e que a amava muito.
        Leu e releu a carta e depois a amassou com raiva.
        "Meu plano desmorona! O casamento que idealizei se desfez. Que devo fazer?
Conheo Elisa e sei que no est blefando. Se decidiu casar, ir faz-lo mesmo. Eu a amo
muito, e corro o risco de no v-la mais. Se casar brigada comigo, certamente ir morar na
capital."
        O irmo de Elisa, Mateus, veio conversar com o pai, e interceder por eles.
        - Pai, o senhor precisa entender que Elisa ama Ranulfo e que os dois planejam se
casar. E o faro, o senhor concorde ou no. Aceite esse casamento para o bem de todos.
        - Est bem - respondeu Sr. Orlando. - Diga a eles que venham  tarde conversar
comigo. Eu os receberei bem e tentarei entend-los.
        Elisa e Ranulfo vieram. Sr. Orlando os recebeu no escritrio. Os trs ficaram
encabulados e por minutos permaneceram em silncio, at que Elisa falou:
        - Papai, o senhor agiu errado. No deveria ter usado de uma chantagem para tentar
nos separar.
        Sr. Orlando fingiu no ter ouvido a filha e falou, como se desculpasse.
        - Pensei melhor e concordo com o casamento de vocs.
        - Que bom! - disse Elisa alegre e abraando o pai. - Amo muito Ranulfo,
pretendemos nos casar, mas queramos o seu consentimento.
        - Esta casa  to grande - disse o Sr. Orlando. - Tem muito espao, e voc, minha
filha, gosta muito daqui. Por que no vm morar aqui, quando se casar? Necessitamos de
mdico e enfermeira na cidade. Trabalharo l e moraro aqui. Prometo no interferir na
vida de vocs.
        Ficaram de pensar, mas logo no dia seguinte deram resposta.
        - Sr. Orlando - disse Ranulfo -, aceitamos sua oferta Elisa tem ainda este semestre
para receber o diploma aps viremos para c e nos casaremos.
        Angela fez os exames, que no acusaram nada de grave. Tomando os
medicamentos, tudo estaria sob controle. Despedi-me de Leonardo; ele ia ficar mais alguns
dias aps retornaria ao trabalho.
        Deixei-o feliz.
        Um ano depois, Leonardo veio despedir-se de mim.
        - Antnio Carlos, tudo est bem. Elisa e Ranulfo se casaram, esto muito felizes. O
casamento foi muito bonito. Casaram na capela da fazenda. Foi emocionante assistir ao
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

enlace dos meus futuros pais. O casal estava lindo e a felicidade presente. Os planos deram
certo. Trabalham na cidade e moram na fazenda. Sr. Orlando Ranulfo tornaram-se amigos e
se do muito bem. Em viagem de npcias, eles foram  Bolvia, visitar o pai de Ranulfo.
Ele pediu perdo ao filho, dizendo que errar acreditando na esposa. Ranulfo perdoou o pai e
reataram os laos afetivos.
        - E Rui? Como est? - indaguei.
        - Rui est bem, visita muito Angela. Minha me est ansiosa para que Elisa fique
grvida, pois seu esprito sabe que serei o filho deles e que a amarei como av.
        Logo estarei reencarnando. At breve, amigo!
        - Leonardo, desejo-lhe muitas felicidades, xito, que consiga cumprir seus
propsitos e que regresse ao Plano espiritual, na poca certa.
        At breve, amigo!
        Abraamo-nos.

                                              ENGANO

        Fui visitar minha amiga Patrcia." Realiza seus planos, estuda e leciona. Encontrei a
na Colnia de Estudos "Casa do Saber", onde d aulas por doze horas dirias, alm de
estudar seis horas em outra Colnia.
        - Antnio Carlos, que bom rev-lo! - disse-me contente, com seu sorriso encantador.
        - Sei que est muito ocupada, mas vim visit-la. Como tem passado esta minha
amiga to atarefada?
        - Agradeo-o pela visita. Realmente estou muito ocupada, tenho trabalhado e
estudado muito. Nos rarssimos momentos de folga, vou visitar meus familiares.
        Sei sempre deles, fazem parte de mim. Antnio Carlos, escrevi os livros por sua
insistncia e amei faz-los.
        Mas sempre quis dedicar-me ao que fao no momento: estudar e ensinar. E o fao
com imensa alegria. Gosto muito de ir ao Centro Esprita, que minha famlia freqenta e
escutar meu pai nas suas palestras, porm tenho ido l raramente.
        - Patrcia, no pensa em escrever mais livros? - indaguei?

(11 - Autora dos livros: Violetas na Janela, Vivendo no Mundo dos Espritos, A Casa do Escritor e
O Vo da Gaivota. (N.A.E.)

        -Atualmente tenho muito trabalho e, como disse, no tenho ido  Terra e nem me
comunicado com encarnados. No descarto a possibilidade de escrever outros livros, e sei
que tia Vera aceitar com gosto trabalhar comigo novamente.
        Talvez o faa, se achar que valer a pena.
        Entendi o que a menina Patrcia falou. Ns, os desencarnados, no somos
propriedade dos mdiuns. Mas por motivos de afinidade e carinho estamos unidos a um em
particular. Antes de escrever livros, eu, Antnio Carlos, era um desconhecido. Patrcia 
uma das muitas jovens que desencarnou em sua cidade. Ela tem muitos motivos que a
ligam  mdium Vera e, para escrever os trs livros, treinou por um bom tempo. Assim
como eu, que me preparei nove anos para escrever o primeiro livro e atualmente so muitos
anos de trabalho e carinho. No que no possamos escrever por outros mdiuns, outros
podem ser, s vezes, at mais capazes. Mas  por afinidade, treino e um imenso amor que
nos unem.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        Sabendo que Patrcia iria iniciar seu horrio de trabalho, despedi-me de minha
amiga com carinho.
        Da Colnia "Casa do Saber" fui  Casa do Escritor, onde vou sempre. Conversei
com amigos e depois dirigi-me  Sala de Pedidos, local da Colnia, onde chegam pedidos
para os escritores desencarnados.
        - Recebemos agora este pedido - disse Aldo, que trabalhava ali no momento -,  de
uma moa encarnada que se chama Francisca. Pede ajuda  Patrcia. Como ela no est
conosco no momento, a equipe de socorro atende em seu nome.
        - Se me permite, irei saber o que ocorre.
        - Agradeo - disse Aldo.
        Em instantes, estava ao lado de Francisca. Ela, em sua casa, chorava e pedia ajuda 
Patrcia.
        - Patrcia, como  duro ser mdium! Que fao agora? Tenho psicografado com tanto
carinho e me disseram que as mensagens que recebo no so de quem as assina.
        Acalmei-a com passes e ela deitou-se. Analisei a situao. Francisca estava
psicografando.
        Li as mensagens que recebeu, eram boas, com contedo Esprita, mas no tinham
nada a ver com o esprito que as assinava. Era de um desencarnado conhecido no meio
Esprita.
        Para tirar dvidas, voltei  "Casa do Escritor" e no foi difcil achar o personagem,
que me afirmou no ser ele o autor, finalizando:
        - Sou muito ocupado; at que gostaria de ser protetor de muitos que me solicitam,
mas no tenho tempo. E tambm no posso ditar mensagens  revelia. Sabe bem que tudo o
que fao  preparado, que tenho o mdium com que trabalhei e trabalho para estar com ele.
E se tiver que ditar algo aos encarnados,  por ele que o farei.
        Agradeci e fui ao Centro Esprita que Francisca freqentava. Logo achei o
desencarnado que se fazia passar por outro. Conversei com ele.
        - Meu amigo - disse -, por que usa um nome que no lhe pertence? Como tomou a
aparncia desse desencarnado?
        Alberto, era o nome dele. No era mau, o que lhe faltava era conhecimento.
Convidou-me a sentar ao seu lado e me disse:
        - Admiro muito essa pessoa. Queria escrever, mas quem iria dar ateno a um
simples Alberto desconhecido? Assinando um nome conhecido, chamo a ateno.
        Depois a mdium queria muito que aquele esprito lhe ditasse mensagens. Queria
tanto, que me aceitou na hora em que tentei passar por ele. Depois, tive tantos nomes, que
importaria mais um?
        - Alberto - disse-lhe -, antes de Emmanuel e Andr Luiz escreverem por meio de
Francisco Cndido Xavier, eram desconhecidos, e assim tambm muitos outros que se
destacaram na Literatura Esprita psicografada. Ficaram conhecidos pela perseverana e
trabalho juntamente com os mdiuns que lhes serviram de intermedirios. Li o que
escreveu. Tem talento. Por que no vai estudar? A Colnia "Casa do Escritor" oferece
timos cursos de preparao.
        - No  muito demorado? Treina-se por anos. E a mdium ir querer?
        - Pacincia, perseverana e treino: este  o caminho para se fazer um trabalho bem
feito. No  certo usar nomes de outros.
        No fiz por mal, sou bom - respondeu Alberto.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        - Sei disto. Mas engana a mdium. Por que no retoma o seu aspecto, o que tinha na
sua ltima encarnao? No deve continuar com a aparncia desse outro desencarnado.
        - Tive medo que algum mdium vidente me visse e me desmascarasse. Sabendo que
podemos modificar a aparncia perispiritual, tornei-me igual a ele. Se voc me diz que isto
 errado, serei eu mesmo daqui para frente.
        Rapidamente ele se modificou, e era bem diferente.
        Alberto prometeu pensar nos meus conselhos e ir visitar a "Casa do Escritor".
Despedi-me dele com carinho.
        Nesse caso, Alberto aceitou meus argumentos, mas outros espritos mais
determinados ou rebeldes no os aceitam e, como tm o livre-arbtrio, so respeitados, e
continuam a passar por outros. Cabe aos encarnados serem mais precavidos, estudiosos e
menos orgulhosos e vaidosos.
        Fui novamente at Francisca. Estava dormindo, provoquei o seu desprendimento do
corpo adormecido, e ela o fez facilmente. Agora era quase como eu, em perisprito, s que
ela estava ligada ao seu corpo fsico. Olhou-me desconfiada e apresentei-me a ela.
        - Sou um amigo, vim para ajud-la. Vamos conversar um pouco? Por que voc est
triste?
        - Estou h algum tempo psicografando. Gosto muito. Estava recebendo algumas
mensagens de um esprito que assinava um nome conhecido dos Espritas. Fiquei contente,
mas...
        - Contente e orgulhosa?
        Francisca no respondeu a minha indagao. Depois de instantes silenciosa,
continuou.
        - Vim a saber que no era este esprito que escrevia, e sim outro. Sofri muito, sinto-
me enganada.
        Ainda bem que Francisca no fez como muitos outros mdiuns que, mesmo
alertados, teimam, facilitando o engano do desencarnado mistificador. Mas como tudo o
que no  verdade no vai para frente, um dia ambos, o desencarnado e o mdium, caem em
contradio, acabam sendo desmascarados. Tentei explicar isso de modo mais simples 
mdium.
        - Francisca, o Espiritismo no est nas mos dos poucos conhecidos dos homens,
mas sim dos muitos conhecidos de Deus, estejam encarnados ou desencarnados.
        Todos os Espritas sinceros, mdiuns ou no, so os que fazem caminhar esta
doutrina abenoada e consoladora. Todos os Espritas tm a mesma importncia, seja o que
d passes com muito amor, o que trabalha na assistncia social, o que faz uma sopa, o que
confecciona uma roupa, o que trabalha com o livro Esprita, o que faz palestras, o que
doutrina um desencarnado, o que psicografa; enfim, aquele que quer aprender e progredir e
todos aqueles que cumprem com amor uma tarefa simples, esto colaborando com a
Doutrina e todos devem ter a mesma considerao. Quanto aos desencarnados, so poucos
os que se sobressaram e ficaram conhecidos dos encarnados. Muitos trabalhadores
desencarnados no so conhecidos dos encarnados, mas sim do Plano Espiritual Elevado.
        Muitos encarnados costumam dar valor a nomes conhecidos deles, esquecendo-se
dos nomes conhecidos do Pai-Maior. No que estes no sejam conhecidos de Deus, so.
        Mas muitos outros desencarnados tambm a esto trabalhando junto a encarnados
com imenso amor.
        - Queria tanto que fosse verdade, que esse esprito enviasse mensagens por meu
intermdio  disse Francisca.
Aconteceu                                                       pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

        - Francisca, cada um de ns tem uma tarefa a fazer e esse esprito que cita, no
momento, no pode fazer-lhe a vontade.
        - Que engano chato!
        - Vamos analisar o porqu desse engano. Voc queria muito que esse esprito
viesse escrever; quis tanto que o desencarnado que queria escrever, o fez e deu o nome que
voc desejava. No foi por maldade, mas poderia ter sido. Espritos brincalhes usam desse
processo para enganar. Tambm ocorrem muitos casos em que o mdium no pede ou no
deseja mensagens de determinado esprito, mas o desencarnado que manda a mensagem, d
um nome que no  o seu, seja conhecido ou no. Por isso  preciso cuidado, tanto por parte
dos mdiuns quanto dos dirigentes de Centros Espritas.'

(- O alerta vale tambm para o trabalho de curas. Existem no Plano Espiritual inmeros mdicos e
estudiosos que gostam de trabalhar com mdiuns, tentando amenizar as dores fsicas dos
encarnados. E muitos mdiuns s querem mdicos com nomes conhecidos, prejudicando esse
trabalho to bonito. O que importa so os resultados, e o mdium deve ser humilde e trabalhador.
(N.A.E.)

        - Que fao para no ser enganada? - indagou Francisca interessada em aprender.
        - Estudar, cara Francisca. Allan Kardec analisava muito bem tudo o que recebia dos
espritos. Estude as obras do Codificador da Doutrina Esprita. Quando for psicografar,
pense firme em Jesus como se nosso mestre Nazareno es tivesse presente, e voc a fazer a
mensagem para Ele. No queira mensagem de ningum conhecido e, se vier alguma
espontnea, analise bem para ver se  verdadeira. E muita, muita cautela; espritos
conhecidos, normalmente para evitar polmica, preferem assinar, quando no  seu mdium
habitual, "um protetor", "um amigo" etc. Voc, Francisca, no comeo da mensagem, pode
indagar quem  o desencarnado que quer escrever, se ele no quiser dar o nome e disser que
 um protetor, tudo bem. Porm a mensagem deve ser analisada. Se for boa, de
ensinamentos bons,  um bom esprito. Se no for boa, o desencarnado que escreve no est
bem espiritualmente. A escrita grafa pensamentos e estes devem ser s bons. Os espritos
que no esto bem, devem usar da psicofonia para uma orientao. Mas, quando o esprito
escritor d o nome, pense bem em Jesus e pea ajuda a Ele e aos bons espritos para que, se
for verdade, o desencarnado continue a escrever e, se no for, que pare e no continue a
engan-la.
        - Ento foi minha culpa o engano que sofri?
        - No teria havido engano se voc tivesse aceitado o desencarnado que se chama
Alberto e que  desconhecido. Ore, vigie e estude, Francisca, porque, muitas vezes ao se
querer tanto mensagens de desencarnados conhecidos, podem vir espritos maus e comear
uma sria obsesso, principalmente quando o mdium  vaidoso. Esse desencarnado que
enviou as mensagens, est h muitos anos com voc. Mas o que falta a vocs dois  estudo.
        - Mesmo com estudo  possvel ser enganado?
        - Estudo  conhecimento e com entendimento o engano fica mais difcil de
acontecer.
        Mas mesmo com estudo ainda se pode ser enganado. Principalmente se o mdium
for vaidoso, orgulhoso e quiser mensagens de espritos conhecidos. Se no tiver humildade
para analisar, pode haver engano.
        -  certo evocar um esprito para que escreva? - Francisca indagou, querendo saber.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        - Depende - continuei a elucid-la - Allan Kardec evocava os espritos para fins
nobres. Outros espritos preferem ensinar a no evocar para que no se caia em enganos.
Como j lhe falei, os espritos mais conhecidos dos Espritas tm muitas tarefas e nem
sempre esto em disponibilidade para atender. Mas evocar os espritos para ter mensagens
de familiares, por exemplo,  vlido. No h muito interesse em se fazer passar por um
desconhecido, mas mesmo assim pode haver desencarnados brincalhes, at maus, que o
fazem.
        Muitos Centros Espritas tm xito ao pedir aos desencarnados que enviem
mensagens para amigos e familiares. Isso deve ser feito com encarnados responsveis e sob
os cuidados de um mentor ou protetor da Casa Esprita. O desencarnado a quem foi feito o
pedido,  localizado e, se estiver bem,  convidado a escrever, ficando  vontade para
atender ou no o pedido. Se aceitar, vem e dita a mensagem. Deve- se saber que muitos dos
pedidos no so atendidos, porque s vezes o desencarnado solicitado no pode ditar no
momento por vrios motivos. Para melhor fazer esse trabalho, aconselho-a a seguir as
instrues que lhe dei. No comeo da mensagem pensar em Jesus e pedir ajuda para no ser
enganada.
        - Acho que no vou mais psicografar - falou Francisca.
        - Analise, Francisca, no que voc pode ser mais til. Lembro-a que, no trabalhar
com a mediunidade, por medo de ser enganada, no  desculpa. Sendo mdium, deve
trabalhar com sua mediunidade para o bem de voc mesma. Todos os mdiuns que so
teis, tm vrios anos de trabalho, treino e estudo. Trabalhando no Bem, quem primeiro
recebe os frutos  voc mesma, e depois os outros. A psicografia tambm requer do
mdium treino, trabalho e estudo. Talvez pela psicografia seus frutos se tornem conhecidos,
mas para Deus no faz diferena. Nosso Pai-Maior quer que tudo o que fizermos, que seja
com Amor.
        - Agradeo a linda lio que me deu - disse Francisca.
        - So ensinamentos simples e se os seguir no ser mais enganada.
        Francisca voltou ao corpo. Quando acordou estava mais calma, recordou do sonho,
ou seja, do nosso encontro. Falou baixinho: "Devo tirar lies desse engano. Vou estudar
mais e no vou querer fazer mensagens de espritos conhecidos na Literatura. Eles so
muito ocupados. Vou, sim, prestar mais ateno ao contedo das mensagens que receber. E,
certamente, se eu me dedicar, quem sabe eu e este Alberto no ficaremos conhecidos?"
        Orei por Francisca, desejando-lhe xito e que no fizesse psicografia para se tornar
conhecida, mas sim com compreenso, para ser til e com muito Amor. Tornar-se
conhecida no deve ser uma meta e sim uma conseqncia de um trabalho bem feito.
        Parti para outra tarefa.

                                          O AFOGADO

        O domingo amanheceu lindo. O sol de vero brilhava no cu sem nuvens.
        Agenor levantou-se do leito, olhou para o cu e exclamou: "O dia est me
convidando para um passeio."
        Era o nico filho solteiro e morava com os pais. Estava sozinho em casa, porque
seus pais foram logo cedo visitar seus avs e com eles passar o domingo.
        "Vou  represa passear um pouco."
        S levaria seu calo de banho e dinheiro para o lanche. Resolvido, num instante
estava no ponto de nibus que, para sua sorte, passou logo. E l foi Agenor todo contente e
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

pensando: "No me importo em ir sozinho; l encontro amigos e, se no encontrar, fao
novas amizades. Voltarei antes dos meus pais. Mas se me atrasar eles no iro se preocupar,
pois saio sempre aos domingos  tarde. No posso perder a oportunidade de me bronzear
neste domingo quente de sol."
         A represa ficava perto da cidade em que morava. Agenor gostava muito de sua
cidade, que no era grande, mas muito agradvel. A represa tambm no era grande, mas
bem arrumada e bonita, timo lugar para passeios. O local era muito freqentado pelos
habitantes da cidade em que residia. Agenor gostava muito de ir l aos domingos e feriados,
principalmente no vero, e aquele domingo estava ideal. Como seus amigos no iam,
resolveu ir sozinho, mas normalmente passeava com sua turma.
         Agenor, moo agradvel, estava com vinte e trs anos, era alegre e brincalho.
Trabalhava numa pequena fbrica e no momento no tinha namorada. Achava-se uma
pessoa feliz.
         O nibus chegou  represa, Agenor desceu contente, porm no viu nenhum amigo.
Mas logo estava jogando bola com uma turma de rapazes. Na hora do almoo, foi lanchar
num pequeno restaurante e depois foi para a beira d'gua. Admirou a beleza do lugar.
Sentindo calor, resolveu dar um mergulho. Nadou por alguns minutos. De repente, pareceu-
lhe que saiu do ar, ou seja, ficou alheio, ou "deu um branco", como os jovens costumam
dizer.
         Agenor voltou  margem e sentou-se num banco  beira d'gua. Estava se
recompondo quando algum gritou: - Olhem! Algum est afundando! Um corpo! Algum
se afogou!
         Quatro rapazes pularam n'gua e foram ajudar o que achou o corpo, a tir-lo da
gua.
         Agenor levantou-se e ficou olhando. Num instante reuniram-se muitas pessoas no
local.
         Agenor achou mesmo que todos que ali estavam, tinham vindo para aquele pedao.
Logo os quatro rapazes tiraram da gua o corpo do afogado.
         - Est morto mesmo! - disse um dos rapazes que o examinou - No tem pulso, no
respira!
         -  o jovem que jogou bola conosco de manh - disse o outro moo.
         - Acho que ele se chama Marco Antnio - falou outro jovem.
         - Vamos lev-lo  cidade.
         Os quatro jovens que tiraram o afogado da gua, foram os que tomaram a iniciativa
e conversavam entre si sobre o que fazer com o morto.
         - Algum sabe onde mora o Marco Antnio? - gritou um dos rapazes ao pessoal
presente.
         Uma mocinha, que no quis olhar o corpo com medo, disse:
         - Marco Antnio mora na rua Oliveira, logo no comeo.
         - Ento, vamos l turma. Vamos lev-lo. Jogou bola conosco, cabe a ns lev-lo 
famlia.
         Muita gente falou, os palpites foram muitos. Agenor concordou com os jovens:
jogaram bola juntos, eles de veriam levar o defunto para a famlia. Como ele tambm
jogou, achou que deveria ir. "Coitado do afogado" - pensou. - "Era dever cristo lev-lo aos
familiares."
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Puseram o afogado no banco de trs do carro, acomodaram-no entre dois moos.
Agenor acomodou-se tambm atrs, e l foram  cidade. Foram direto para a rua Oliveira,
que no era longa, e comearam a indagar.
        - Onde mora Marco Antnio?
        At que indicaram uma casa.
        - Bem,  aqui. - disse um dos moos - E, agora, o que fazemos? Como chegar e
dizer que trouxemos o filho morto, afogado?
        -  melhor um de ns descer e dar a notcia devagar. Concordaram e um deles
desceu, bateu  porta da casa e uma senhora atendeu.
        -  aqui que o Marco Antnio mora?
        - Sim,  - respondeu a senhora.
        - Ele est?
        - No.
        - Bem, a senhora tem que ser forte. Aconteceu um fato desagradvel e trouxemos
seu filho morto.
        A mulher comeou a gritar desesperada. Os vizinhos saram de suas casas e a
rodearam, querendo saber o que tinha acontecido.
        - Que houve?
        - Morreu? Quem?
        - Afogado? Onde est?
        A senhora continuou gritando.
        Agenor ficou olhando. "Que chato!"  pensou - "Que confuso!"
        Depois de minutos, a senhora parou de gritar e o moo pde explicar.
        -  que Marco Antnio se afogou na represa, e o trouxemos morto.
        - Meu filho se afogou na represa?! Mas meu filho est em So Paulo.
        Correu para o carro e olhou o defunto.
        - Meu Deus! - exclamou a senhora toda alegre. - Obrigada! Este no  meu
        filho, Marco Antnio!
        - No?! - gritaram os moos.
        - No, no  - disse a senhora aliviada.
        - E agora? - perguntou um dos moos nervoso. - Onde ser que este Marco Antnio
mora?
        - Ali naquela casa mora outro moo que se chama Marco Antnio - disse uma outra
senhora.
        - Vamos l e j!
        Entraram no carro e rumaram para a casa indicada. O pessoal que sara das casas ao
ouvir os gritos da senhora, foi atrs e chegou logo aps o carro. Dois dos moos desceram e
bateram  porta da casa j inquietos, querendo entregar rpido o defunto.
        Novamente uma senhora os atendeu; estranharam, pois era negra, e o defunto,
branco. Um dos moos tratou logo de explicar.
        - A senhora tem um filho que se chama Marco Antnio?
        - Tenho.
        -  que ele morreu afogado e ...
        - Marco Antnio!
        A mulher gritou alto e forte. Um jovem negro veio correndo.
        - Que foi me? Que aconteceu?
        Os moos se olharam desanimados.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        - Como v, este  meu filho Marco Antnio, vivo e forte.
        - Desculpe-nos,  que informaram que ele morava aqui. Um senhor, que seguiu o
carro com os outros, e agora eram muitas as pessoas em volta dos moos, indagou aos
rapazes.
        - O que aconteceu?
        Um dos moos resolveu explicar, porque sentiu que necessitava de ajuda.
        - Estvamos na represa e este moo, o afogado jogou bola conosco. Depois o
encontramos morto na gua, resolvemos traz-lo para a cidade e entreg-lo aos seus pais.
S que nos informaram que ele morava por aqui.
        - Nesta rua s tem dois Marcos Antnio. Moro aqui h tempo e conheo todos seus
moradores disse o senhor.
        - Vocs tm certeza de que o morto se chama Marco Antnio?
        - Foi o que nos informaram.
        Agenor no se sentia bem, estava um tanto enjoado e tentava prestar ateno, mas
no estava se concentrando direito. Ele, que era muito falante, estava quieto acompanhando
os acontecimentos. Pensou: "Estou com vontade de ir para casa e me deitar. A turma no
ir acreditar que estou me sentindo mal. Vo achar que os estou abandonando. No fica
bem larg-los agora".
        Tentou prestar ateno nas conversas. O senhor continuou a falar
        - Vocs so uns imprudentes! Isto  caso de polcia. Quando algum morre assim,
tem que se chamar a autoridade, que se encarregaria de localizar e avisar os parentes. Vocs
entraram numa "fria". Podero ser acusados de ter matado o "cara", de ocultar o cadver ou
at de roubar o defunto.
        - Roubar o cadver? Mas queremos entreg-lo - disse um dos moos, apavorado.
        - Jesus! Que faremos agora? - indagou um outro.
        Os moos ficaram com medo e entenderam que aquele senhor tinha razo.
        Agenor pensou: "Em que fria me meti: sa para passear e me distrair. Tentando
ajudar um morto, posso ir preso!"
        Um dos jovens pediu ao senhor.
        - Por favor, ajude-nos! No fizemos por mal!
        - Vamos ver o cadver - disse o senhor.
        Foram todos at o carro, ele levantou a cabea do afogado e examinou-o.
        - Est me parecendo o Agenor, neto do Sr. Chico e da Dona Maria!
        - Parece sim - confirmou uma senhora.
        "Agenor! Mas o Agenor neto do Sr. Chico e da Dona Maria sou eu! Que est
acontecendo?"
        - Os avs dele moram logo ali - apontou o senhor. - E os pais deste moo esto l
passando o dia. Vou l com vocs e os ajudo.
        Entraram no carro, Agenor no. Ele foi correndo atrs com o pessoal que ali se
juntara. -"Meu Deus! - exclamou Agenor - E a casa dos meus avs. Ser que esto
pensando que sou eu o morto?"
        Bateram  porta da casa, o av de Agenor atendeu e o senhor explicou com calma e
educao.
        - Sr. Chico, estes moos foram  represa e acharam um moo morto, afogado.
Trouxeram-no imprudentemente para a cidade, pensando que era o Marco Antnio. Como
no , achamos que poderia ser o seu neto Agenor. O senhor quer vir dar uma olhada?
        Enquanto falava, o pai de Agenor apareceu na porta, depois a me e a av.
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

       O pai foi at o carro. O pessoal ficou em silncio absoluto. O pai de Agenor estava
nervoso e tremia.
       Olhou o defunto, depois se encostou no carro e disse baixinho.
       -  ele!
       Caminhou de volta  casa para perto da esposa, que estava parada, branca e
querendo chorar. Agenor aproximou se do carro e pela primeira vez olhou bem para o
morto.
       "Mas sou eu! Como?"
       Sentiu-se pior, encostou numa rvore perto do carro. "Ai Jesus! Ai Jesus!" 
choramingou baixinho.
       Ento Agenor viu seu outro av, desencarnado, sorrindo-lhe tranqilamente.
Enquanto todos choravam, ele sorria. At o pessoal que se ajuntara chorava. Ele, seu av
Marinho, veio ao seu encontro devagar. Pareceu-lhe muito bem, estava radiante. Aos olhos
de Agenor, pareceu que seu av estava dentro de uma luz. S que ele havia desencarnado
h tempo. Agenor assustou-se, mas no correu por se achar cansado e muito enjoado. Teve
muito medo, mas no conseguiu deixar de olhar para seu av. Ao v-lo to tranqilo,
sorrindo, foi se acalmando. Seu av chegou perto e disse-lhe com muito carinho.
       - Agenor, meu neto!
       -Vov!
       Agenor refugiou-se nos braos do av.
       - Vov Marinho, me ajude! Como  que o estou vendo, se o senhor morreu? Jesus,
me ajude, por piedade!
       Que aconteceu comigo?
       - No se afobe, querido neto. Calma! Estou aqui em nome de Jesus para ajud-lo!
       - Sou eu o afogado? - Agenor indagou com medo.
       - Sim, seu corpo morreu, mas voc como esprito vive. Cuidarei de voc!
       Agenor sentiu-se levantar do cho, acomodou-se nos braos do av e o mal-estar e o
enjo foram passando. Teve sono e acabou dormindo. Foi levado pelo av a um Posto de
Socorro, aceitou sua situao e logo se inteirou da vida nova que se lhe apresentou. Hoje, ri
muito da confuso que houve na sua desencarnao.'

(13 - Cada desencarnao acontece de um jeito. Agenor desencarnou lago que seu organismo teve
uma indisposio que o fez perder os sentidos e se afogar. No tendo conhecimento que
desencarnara, presenciou os acontecimentos narrados. Mas isso no acontece com todos os que se
afogam. Cada caso  um caso e, por ser o seu,  especial. (N.A.E.)


                                  AJUDANDO UMA FAMLIA

        Fui visitar um Centro Esprita e rever alguns amigos.
        Entre eles, estava Alexandre de cuja amizade tenho, h muito tempo, o prazer de
desfrutar. Propositadamente, cheguei antes de iniciar mais um dos trabalhos da casa. Estava
marcado para aquela noite o estudo do Evangelho e logo aps seriam atendidas pessoas
necessitadas de passe. Aps abraos e cumprimentos, Alexandre chamou minha ateno
para uma pessoa.
        - Antnio Carlos, observe esta mulher!
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        A senhora orava com muita f. Era alta, morena, simptica, deveria ter uns trinta e
cinco anos.
        - Vamos saber por quem ela pede com tanta devoo, - falou Alexandre.
        Alba, assim se chamava essa senhora. Ela orava e pedia pelos seus patres.
        - Vamos tentar atend-la. Fiquei encarregado, pela orientao da Casa, de auxili-la.
        Voc no quer me ajudar?
        Sorri. Como se Alexandre necessitasse de ajuda! Eu sim  que, acompanhando-o,
muito teria que aprender. Combinamos ir, s nove horas do dia seguinte, ao lar dos patres
de Alba.
        Alba gostava deles. Quando somos bons, tem sempre algum que intercede por ns
quando necessitamos.
        Neste caso, a empregada domstica pedia pelos patres e, com sua f e humildade,
levou-nos at aquele lar que era confortvel e grande, mas estava em desequilbrio.
        A famlia era composta de Salvador, com quarenta e seis anos de idade, Iva, com
quarenta anos, e os filhos Henrique e Laura, adolescentes.
        Salvador era um empresrio, com uma indstria de porte mdio. Tinha uma amante,
Magda, por quem estava fascinado. No se importava mais com a famlia.
        No ficava muito em casa e, l estando, era quieto. Quando perguntavam o que
tinha, respondia por monosslabos e nervoso.
        Iva, a esposa, estava doente e os mdicos diagnosticaram depresso. Tinha dores
pelo corpo, estava nervosa e chorava com freqncia. Pensava em morrer, e muitas vezes a
idia de suicidar-se vinha-lhe  mente, mas no tinha coragem. Alexandre e eu a
examinamos.
        Carga fortssima de fluidos negativos a envolvia. Estvamos com ela no quarto,
quando duas entidades trevosas entraram no aposento. Sugaram suas energias e depois
lanaram em Iva uma carga de fluidos deletrios. Ela se sentiu mal, a fraqueza a
incomodava, comeou a chorar, e as entidades obsessoras, a rir e criticar.
        - Que fazem aqui? - Alexandre indagou.
        Eles no nos viram, mas escutaram sua indagao. Olharam-se preocupados.
        Os dois estavam imundos, cabelos espetados e unhas grandes e sujas. Suas vestes
eram largas e velhas, usavam colares de correntes grossas e, na cintura, um chicote com
bolinhas de chumbo nas pontas. Os dois tentaram fugir, como sempre fazem quando
percebem perigo, que para eles, nesse caso, era a interveno dos bons. Alexandre impediu-
os de sair, prendendo-os magneticamente. Um deles falou assustado.
        - Deixe-nos ir, somos inocentes! Estamos aqui obrigados. Uma mulher nos mandou
fazer isso e, se no obedecermos, seremos castigados.
        Sempre se desculpam dizendo que so obrigados. Muitos encarnados e
desencarnados maus obrigam de fato outros desencarnados a servi-los e, infelizmente, so
realmente castigados se desobedecerem. Mas, normalmente, ficam juntos por afinidade e
eles gostam do que lhes  oferecido, como farras e facilidades. Mesmo os que so
obrigados, tm como se livrar, procurando a ajuda dos bons. Mas, na hora do aperto,
costumam dar desculpas ou colocar a culpa em outros.
        - Quem os mandou aqui? - indagou Alexandre novamente.
        - A mulher que faz trabalhos de feitios e macumbas.
        - E quem pagou para ela fazer isso? - Alexandre perguntou com voz firme e forte.
        - Magda - respondeu um deles.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

         Mesmo se eles no respondessem, leramos seus pensamentos. E verificaramos se
falavam a verdade.
         - Vocs vm comigo - disse meu amigo.
         Fiquei ali com Iva, enquanto Alexandre volitou com os dois, deixando-os no Centro
Esprita para que recebessem a orientao necessria. Voltou logo e com ele veio um casal
amigo.
         - Este  Jlio e esta  Ceclia. Trabalham conosco h um bom tempo.
         Vieram para auxiliar Iva. Ficaro com ela enquanto tentamos auxiliar os outros
componentes da famlia.
         Alexandre falou sorrindo, apresentando-nos. Depois mostrou Iva a eles. Jlio e
Ceclia observavam a dona da casa e depois se olharam.
         - Jlio - disse Cecilia -, Iva no est lhe parecendo familiar?
         - Sim, tenho tambm esta impresso. Ser que no  nossa filha, reencarnada?
         - Jlio, acho que encontramos nossa filha! - exclamou Ceclia.
         Aps examin-la, concluram:
         - Realmente Iva foi nossa filha falou Ceclia.
         Jlio voltou-se para ns e explicou.
         - Iva foi, na encarnao anterior, nossa filha, e deu- nos muitas preocupaes. Era
rebelde, inconseqente e teve muitos amantes. Acabou apaixonada por um homem casado,
foi abandonada e suicidou-se. Sofremos muito. Quando desencarnamos soubemos que
havia reencarnado. E, como o acaso no existe, agora tivemos por bno ach-la e
poderemos, pela bondade de Deus, cuidar dela.
         Contentes, Jlio e Ceclia aproximaram-se de Iva com todo carinho, abraando-a
com muito amor. Deveriam tirar dela os fluidos nocivos, medic-la e no deixar nenhum
irmo perturbador entrar na casa. Tambm tentariam transmitir-lhe pensamentos bons e
intu-la para que orasse. Desencarnados bons tiram os fluidos negativos de encarnados, mas
estes precisam se cuidar para no cria-los novamente. Quanto a impedir os espritos maus
de entrar num lar  fcil. Mas o encarnado tem seu livre-arbtrio de pensar no que quiser.
         Assim pode ou no receber os pensamentos e incentivos que os espritos bons ou
maus tentam lhes transmitir. Os encarnados recebem melhor os pensamentos daqueles com
quem se afinam.
         A nica a vibrar bem na casa era Alba, que era dedicada, fazia todo o servio da
casa, cuidava de Iva e gostava dos adolescentes como se fossem seus filhos.
         Visitamos Salvador no trabalho, mas ele no estava l, fora encontrar-se com
Magda.
         Aproveitamos para conhec-la. Vistosa, vestia-se com extravagncia, era fingida,
fazendo de tudo para ser agradvel ao amante. Usava o trabalho do mal, feitio ou
macumba, para prender Salvador ao seu lado, no por am-lo, mas por dinheiro.
         Desejava ser a esposa dele, queria Iva morta.'
         A noite, a mulher encarnada, mdium, feiticeira ou macumbeira, que servia s
trevas, chamou as duas entidades, as que encontramos junto de Iva. Alexandre e eu fomos
no lugar delas. E tambm Mauro, um trabalhador que iniciava suas tarefas no Centro
Esprita. Ia como aprendiz.
         A mulher exalava um cheiro desagradvel, vestia roupas muito coloridas, colares,
figas e fumava um cachimbo. Estava sentada numa cadeira de madeira enfeitada com
cabeas de animais. A sua frente havia bebidas alcolicas e velas de vrias cores.
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                   Vera Lcia M. de Carvalho

        Alguns encarnados estavam sentados no cho num dos cantos da sala. Uns vinte
desencarnados estavam presentes. A imprudente encarnada era mdium vidente e
infelizmente usava de sua mediunidade para fazer o mal. Os desencarnados ali presentes
eram de diversos tipos, uns parecendo animais, outros verdadeiros monstros' Outros se
vestiam como encarnados e havia at os que no tinham roupa nenhuma. Havia
desencarnados de ambos os sexos.

(- Ao orar e desejar o bem a algum, enviamos fluidos positivos e benficos. Ao querermos o mal,
tendo dio e rancor, enviamos flui dos nocivos. O destinatrio pode receber ou no os fluidos, nos
dois casos, porque tudo depende de sua vontade ou do estado vibratrio em que se encontre, ou
tambm de sua afinidade. Os trabalhos para o mal, denominados feitios, macumbas ou outros, so
feitos normalmente por mdiuns, que servem aos Espritos trevosos. Esses trabalhos se
concretizam, enviando-se fluidos negativos, ou ordenando que Espritos que vagam, fiquem perto
das pessoas. Mas essas pessoas tm como se defender, orando com f, seguindo uma religio de
modo sincero, agindo com bondade e buscando ajuda de pessoas que possam anular esses
trabalhos. Oraes sinceras e humildes no ficam sem respostas. (N.A.E.)

(15 - Muitos ficam com esse aspecto, por castigos provocados entre eles. Mas a maioria se
apresenta assim porque gosta, achando-se importante, ou para assustar mais. (N.A.E.)

        Alexandre, Mauro e eu vamos todos os presentes perfeitamente. Os desencarnados
e a mdium no nos viam, por vibrarmos diferente. Mas para nos apresentarmos a eles,
quisemos e nos tornamos visveis. No comeo, olharam-nos com indiferena, depois
passaram a nos examinar. Alexandre, com sua fora mental, prendeu todos os
desencarnados presentes. Eles no conseguiram se mexer ou falar, porm nos escutavam e
enxergavam. Espritos que sabem fazer o que Alexandre assim procedeu, fazem-no com
facilidade, porm tm que estar presentes e normalmente isso se faz por pouco tempo.
        Alexandre o fez para que ficassem quietos e para que pudssemos conversar com a
mdium. Alexandre falou alto, mas tranqilo, sua voz soou como trovo.
        - Exijo que a casa de Salvador e Iva seja respeitada. Agora aquele lar est sob minha
responsabilidade. No os quero l!
        A mdium no ficou presa, mas no saiu do lugar. No gostou da visita, olhou para
os encarnados e gritou:
        - Invoquemos o mal! Que nossos amigos nos acudam destes intrusos! Saiam os trs
daqui! Que querem de ns?
        - J disse - falou Alexandre. - Aqui estamos para lhes dizer que os dois
desencarnados que estavam em casa de Salvador e Iva, no voltaro mais. E, se algum
daqui l ousar ir, tambm no voltar. No invoque seus seguidores desencarnados, porque
esto presos, e vocs s voltaro ao normal quando sairmos daqui. Quanto a voc,
encarnada, lembro-a de que um dia ter que dar conta de seus atos. Est plantando dores e
sofrimentos e colher do que planta!
        Volitamos para fora. Os desencarnados presos puderam se mexer e ficaram
aliviados.
        - Iro obedecer? - indagou Mauro curioso.
        - Jlio e Ceclia os prendero, se algum destes espritos for  casa de Iva. Essa
mulher  inteligente, e sabe bem com quem pode. No lhe  agradvel perder seus
empregados. Acho que no nos incomodaro. Se este grupo estivesse empenhado numa
vingana ou obsesso, seria mais difcil. Nesses casos, encarnados e desencarnados esto
Aconteceu                                                     pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

ligados por dio, que  um sentimento forte, que no se desfaz facilmente e no deixariam
de faz-lo s com advertncias. Mas, neste caso,  um trabalho do mal ou feitio, e foi feito
por pagamento.
        Sabendo que trabalhadores do Bem esto interferindo, no  mais do interesse deles
continuar.
        - A mulher, a mdium, devolver o dinheiro que recebeu da mandante, j que no
ir mais faz-lo? - indagou
        Mauro novamente.
        - Trabalhos assim costumam ser caros, quanto mais o encarnado julga saber fazer,
mais cobra. Duvido que ela devolva o dinheiro e ai da mandante se ousar reclamar 
elucidou Alexandre.
        - Apesar de cobrar caro, nunca vi uma pessoa enriquecer com esses trabalhos 
disse Mauro.
        -  verdade - falou Alexandre. - O dinheiro obtido desse modo no traz fortuna. E a
responsabilidade dessas pessoas  grande; um dia se arrependero e sofrero as
conseqncias de suas maldades.
        - E se levssemos todos os desencarnados que l estavam para serem orientados? -
indagou Mauro contente com a idia que teve.
        - Seria prudente levarmos para socorro tantos imprudentes? No seria fcil
aceitarem a orientao, que no querem no momento. Com o tempo se cansaro, ento
desejaro mudar e encontraro no socorro oferecido a orientao que necessitam. Levamos
aqueles dois porque julguei necessrio. Tinha que intimidar aquela encarnada. Os dois,
atravs da incorporao, recebero o convite para mudar de vida, e aceitaro se quiserem.
Mas, como disse que no voltariam, os dois devem permanecer no Centro Esprita por uns
tempos. Creio que no ambiente propcio do nosso Centro Esprita eles mudem. Mas so s
dois, com muitos isto seria imprudente.
        - Ns poderamos tentar orientar os desencarnados e os encarnados? Eles tambm
esto desajustados tanto quanto os desencarnados. E as pessoas que pagam para que estes
trabalhos do mal sejam feitos? So tambm culpadas?
        - Mauro, os mdiuns que se iludem com o falso poder, para ganhar dinheiro, ligam-
se a esses desencarnados, mas so muito errados. Encarnados e desencarnados afinam-se e
igualam-se. Todos ns temos nosso livre-arbtrio em que Deus, nosso Pai, no interfere.
        Fazemos as aes e somos donos das reaes. Se levssemos todos os
desencarnados e tentssemos orient-los, ficariam ainda os encarnados que logo achariam
outros desencarnados para juntos trabalharem no mal.
        - Tem razo, Alexandre - disse Mauro. - Entendi. H muitos encarnados e
desencarnados que fazem o Mal, como tambm muitos que fazem o Bem. E cabe ao
prudente precaver-se desses trabalhos, orando e vibrando no Bem.
        Despedimo-nos de Mauro, que voltou aos seus afazeres no Centro Esprita.
        Alexandre e eu voltamos  casa de Iva e fomos ver os adolescentes. Henrique
caminhava para o vcio: comeou fumando maconha e j estava tomando cocana injetvel.
Gastava toda sua mesada, e tambm j tinha vendido alguns objetos pessoais e ainda estava
necessitando de mais dinheiro.
        Laura estava grvida e, no dia anterior, havia retirado o exame com a confirmao.
O namorado no queria assumir a criana e nem v-la mais. Estava desesperada e comeou
a pensar em suicdio, como uma forma de resolver os problemas. Ceclia, preocupada com
Laura estava conosco e Alexandre lhe explicou:
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

        - Ceclia, os pensamentos tm forma. Podemos pensar no Bem para ns e para os
outros, como tambm no Mal. Costuma-se dizer, e  certo, que os que pensam em
acontecimentos bons, atraem para si coisas boas. Os que pensam em coisas ruins, atraem-
nas para si. Iv pensa tanto em suicdio, materializando formas-pensamentos que algum
mais sensvel pode receb-las. Laura que passa por dificuldades, recebeu esses
pensamentos, alimentou-os e planeja suicidar-se.
        Alexandre pediu ajuda a um jovem que h anos trabalha com os drogados.
        Csar veio ento trabalhar conosco, passou a ficar perto de Henrique para tentar
ajud-lo. Limpamos com passes todos os quatro moradores daquele lar e tudo fizemos para
aconselh-los. Concentramo-nos em Salvador, para que voltasse a ateno para a situao
do seu lar.
        Laura estava irredutvel e, por mais que tentssemos ajud-la, no nos atendeu;
tomou um vidro do remdio para dormir, de sua me.
        Usamos Alba para socorr-la. Ela nos atendeu e foi ao quarto da mocinha,
encontrando-a cada. Viu o remdio, deu o alarme e gritou. Iva e Henrique, que estavam em
casa, vieram correndo. Chamaram o pai e levaram-na para o hospital. O socorro veio bem a
tempo, mas Laura perdeu a criana.
        Salvador e Iva assustaram-se quando o mdico lhes contou sobre o aborto.
        Laura ia ficar mais uns dias no hospital. O casal voltou para casa desconsolado.

(- Conforme nos ensina Ernesto Bozzano, em seu livro Pensamento e Vontade, editado pela
Federao Esprita Brasileira, podemos, atravs do pensamento, materializar formas-pensamento
to complexas, inclusive com a aparncia de animal ou de um ser humano, e essas formas, sem
vida prpria, existiro enquanto forem alimentadas pela fonte geradora, ou seja, pelo pensameno
de quem as criou. Recomendamos a leitura do livro referido, pois esse  um tema bastante extenso.
(N.A.E.)

        - Minha filha grvida e eu nem sabia - disse Iva triste.
        - Quase morreu! - exclamou Salvador - Meu Deus! O que est ocorrendo conosco?
        O acontecimento foi um choque para o casal. Com Jlio e Ceclia perto de Iva, ela
melhorou e resolveu lutar contra sua depresso e seu estado de desnimo.
        Sem os fluidos negativos e sem as duas entidades a lhe sugarem energias, sentiu-se
bem. Tomou conscincia de sua culpa: Tinha se esquecido dos filhos; pensava muito em
suicidar-se e foi a filha que quase morreu. Certamente Laura sofria, estava grvida e ela
nem notara. Por mais que soframos, no devemos nos esquecer dos que esto  nossa volta.
Iva se deixou dominar, concentrou-se em seus problemas e se esqueceu do resto. Teve
culpa, sim foi assim que entendeu e tratou de consertar a situao.
        Salvador levou um susto com a tentativa de suicdio da filha. Amava os filhos de
forma errada, mas amava-os. Aproveitando sua preocupao, Csar induziu-o a se
encontrar com um senhor muito bondoso, para conversarem. Esse senhor e Salvador eram
amigos e h tempo no se viam. Depois de minutos de conversa sobre negcios, o senhor,
atendendo o pedido de Csar, falou a Salvador:
        - Tenho visto seu filho Henrique em ms companhias. Est sempre com um grupo
que toma droga. Voc j percebeu? Talvez seu garoto esteja precisando de ajuda.
        Salvador levou outro susto. Agradeceu e ficou muito preocupado. Comeou a
pensar no filho e a percebeu que Henrique estava estranho, teve ento certeza de que ele
estava se drogando.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Salvador foi buscar Laura no hospital e, quando a filha chegou em casa, encontrou a
me preocupada e carinhosa.
        - Laura, que susto nos deu. Minha filha, prometa-me no fazer mais isso?
        Iramos sofrer muito se tivesse morrido. Que seria de mim sem voc? Perdoe-me,
descuidei-me de voc. Amo-a muito e a ajudarei.
        - No quis dar  senhora o desgosto de ter uma filha me solteira  disse Laura
chorando.
        - Como voc sofreu, filhinha! Certamente eu no iria ficar contente com a notcia de
voc ser me, mas antes mais um, do que menos um. Amaramos seu filho e o ajudaramos.
        - Agora, perdi o nen - Laura queixou-se. - Coitadinho, morreu pela minha
insensatez.
        - Mas temos voc! - exclamou Iva.
        Abraaram-se e choraram prometendo ser amigas. Salvador, que ficou perto,
escutou as duas, comoveu-se e chorou tambm. Aproximou-se e abraou a filha, no falou
nada, mas reconheceu tambm sua culpa.
        Laura se sentiu tranqila com o carinho dos pais. Naquela noite, orou, pediu perdo
a Deus e prometeu nunca mais pensar em suicdio.
        Com tantos problemas, Salvador no viu mais Magda e nem quis. Passou a ser mais
caseiro e a ver Iva de outra forma.
        Csar estava fazendo um bom trabalho com Henrique.
        O ocorrido com a irm preocupou o garoto e, ao ver a me sofrer, sentiu remorso.
Quando Salvador quis conversar com ele, aceitou. Vibramos para que a conversa fosse
harmoniosa e proveitosa. O pai foi ao assunto sem rodeios.
        - Filho, sei que est se drogando. Quero ajud-lo. Permite?
        - Por que esta preocupao agora. Faz tempo que no presta ateno em ns, s
pensa naquela mulher.
        - Sei que errei. Mas quem no erra? Tambm necessito de ajuda. Voc no quer me
ajudar?
        Henrique, que estava de p, olhou bem para o pai, estranhando. Depois, sentindo
sinceridade nele, sentou-se ao seu lado, no sof.
        - Ajud-lo? Como? - indagou o jovem.
        - Estive perturbado. Magda parecia me fazer falta, como a gua. Quero livrar-me
dela. Como voc j disse, ela  uma peste. Penso que  como droga, ruim. Vamos fazer um
trato?
        Voc me ajuda a livrar-me dela, e eu ajudo voc a deixar das drogas. Quero paz
para minha famlia, quero Iva curada, Laura e voc bem e em casa. Quase os perdemos. E
eu os amo!
        Henrique chorou.
        - Papai, quero sua ajuda!
        Abraaram-se e, depois de uns instantes em silncio, Henrique indagou ao pai.
        - Mame sabe que tomo droga?
        - No, e acho melhor ela no saber. Ser um segredo nosso.
        No outro dia, Salvador levou Henrique a um mdico especializado e a um
psiclogo. O adolescente saiu da escola, que era freqentada pelos amigos que se
drogavam. Disseram a Iva que ele estava muito atrasado e ia ser reprovado, por isso sairia
da escola, para voltar no ano vindouro. Fizeram planos de ele ir para outra escola, as sim
que o ano letivo comeasse. Henrique foi trabalhar com o pai, porque estando perto se
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

ajudariam. Salvador no pensou mais em Magda; sua preocupao agora era sincera com os
familiares.
         Henrique, vendo o pai no ir mais se encontrar com a amante, esforou-se tambm
para no se drogar.
         Magda procurou muitas vezes Salvador e, porque no fosse recebida, voltou 
mdium, a mulher a que lhe fez os trabalhos para o mal. Reclamou e dela ouviu:
         - No quero fazer mais o que me pede, com aquela famlia. Voc  que se vire!
Voc me disse que era fcil, que eles no eram de orar, que no tinham religio no corao.
No comeo foi realmente fcil, depois os bons entraram em cena e puseram-nos para correr.
         Fiquei sem dois timos ajudantes. E recebi uma advertncia para no me intrometer
mais l. No posso com quem me ordenou e no sou burra para teimar.
         - O que fao agora? - indagou Magda. - Salvador no quer mais me ver.
         - Arrume outro trouxa - foi a resposta seca da mulher. Salvador e Iv fizeram as
pazes, para a alegria dos filhos. Voltaram a dormir no mesmo quarto. Iva parecia outra.
Passou a ser alegre e a se arrumar. Laura tinha agora nos seus pais os amigos que sempre
quisera.
         Superou o trauma que sofreu, fez o propsito de no errar mais e passou a estudar
com vontade. Henrique libertava-se das drogas. Csar voltou aos seus afazeres e tambm
Jlio e Ceclia.
         - Ainda voltarei algumas vezes aqui para verificar se tudo continua bem  disse
Alexandre. - Antnio Carlos, tive notcias dos dois desencarnados que levamos ao Centro
Esprita: aceitaram a orientao e foram levados para uma Colnia.
         - Que bom! - exclamei contente. - Tudo terminou bem.
         Tambm ia embora. Iva e Alba conversavam.
         - Alba, devo-lhe tanto! Voc  to boa, mais do que empregada,  como uma pessoa
da famlia. Salvador e eu pensamos em recompens-la, comeando por aumentar o seu
salrio. Ajudou-nos tanto!
         - Eu tambm gosto de todos. No fui eu quem os ajudou. S pedi auxlio a vocs no
Centro Esprita!
         Abraaram-se, felizes.

                                  APRENDENDO A SERVIR

        Nasci e cresci numa favela de uma grande cidade.
        Desde pequeno, era amigo de Marcelo. Moravamos perto, amos  escola juntos,
jogvamos futebol, brincvamos de pipa, pio etc. Pequenos ainda, descamos o morro para
vender balas no centro da cidade. Freqentamos a escola at a quarta srie, depois fomos
"batalhar" para encontrar emprego. Marcelo arrumou na oficina mecnica perto da favela, e
eu, num supermercado.
        Mas no gostei do emprego e comecei a pensar em tornar-me bandido. Os
traficantes do morro logo me aceitaram e, ento, larguei o servio e comecei a aprender as
malandragens do grupo a que me entreguei.
        Marcelo advertiu-me:
        - Vandi, isto no  para voc, no vire bandido.  melhor ser honesto. Bandido no
tem vida longa: morre ou vai para a cadeia.
        Chamo-me Vanderley, mas todos me conheciam na favela por Vandi. Morava com
meus pais e meus trs irmos menores. Meus pais trabalhavam muito e nunca tiveram nada.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        Pediram para no me ligar aos bandidos, como falei que ia; disseram-me que ento
seria problema meu e que deveria sair de casa. Assim fiz. Fui morar em outro local da
favela e quase no via mais meus familiares. Mas sempre que recebia um dinheiro a mais,
levava para minha me. Marcelo foi o nico que se preocupou com meu destino, tentando
aconselhar-me. E ali estvamos, num barzinho do morro a conversar.
        - Marcelo - disse a ele -, voc tem o exemplo dos honestos por aqui: eles no saem
disto. Trabalham duro e nada de melhorar. Que futuro terei trabalhando no supermercado?
No bando terei mais coisas e trabalharei menos. Venha voc tambm unir-se ao bando.
        - No, no quero - respondeu Marcelo. - Vou trabalhar.
        - Voc tem medo! - provoquei-o.
        - No sou covarde, sabe disso. Mas no quero ser bandido. Bandidos fazem muitas
coisas erradas que devero doer na conscincia um dia.
        No quis insistir, conhecia bem meu amigo e sabia que no ia mudar sua forma de
pensar. Marcelo comeou depois de um tempo a me evitar. Um dia comentei isso com ele,
porque sempre achvamos tempo para um bom papo.
        - Vandi, minha me no quer que converse mais com voc, ela tem medo que a
polcia ache que perteno tambm ao bando, ou que, sendo seu amigo, podem me pegar e
me torturar para dizer onde voc est.
        A me de Marcelo era viva, e moravam os dois num barraco simples. Ele tinha s
uma irm que era casada e morava em outro lugar. A me de Marcelo gostava tanto dele
que at me fazia sentir inveja.
        - Entendo, Marcelo - respondi. - Tudo bem!
        Assim, nos distanciamos, encontrvamo-nos raramente e, quando o fazamos,
conversvamos por minutos apenas. Infiltrei-me cada vez mais no grupo, aprendi a atirar,
ganhei armas e confiana. Para mim tudo estava bem. Marcelo entrou para a polcia e
continuou morando na favela.
        Alguns anos se passaram.
        Num assalto, encurralaram-me, feri uma pessoa e matei um policial. Fui ferido na
perna, e preso. Bateram em mim para valer, e me torturaram muito. Levaram-me para um
cubculo onde fiquei dependurado pelas mos.
        Sentia muitas dores e fiquei sozinho.
        Ao ver que a porta se abria, estremeci. Mas fiquei aliviado ao ouvir uma voz
conhecida. Era Marcelo.
        - Vandi!
        - Marcelo! - balbuciei. - Est sozinho?
        - Sim. Tome esta gua!
        Deu-me a gua na boca. Estava com muita sede.
        - Queria ajud-lo - disse Marcelo. - Mas no posso solt-lo, e no tenho como tirar
voc desta delegacia.
        Entendi, realmente, ele no tinha como me tirar dali.
        - Marcelo, eles iro me matar, no ?
        Meu amigo no respondeu, abaixou a cabea. Compreendi que eles iam me eliminar
devagar, aos poucos.
        - Voc matou um policial, uma pessoa querida de todos aqui. Vo interrog-lo para
que diga onde esto escondidos seus companheiros.
        - Vo me matar por tortura - gemi.
        Marcelo novamente no respondeu, nem precisava. Ento pedi a ele.
Aconteceu                                                      pelo esprito de Antonio Carlos
                                 Vera Lcia M. de Carvalho

        - Marcelo, se quer me ajudar, mate-me de forma rpida, por favor.
        - Quer mesmo?
        - Por favor.
        Ele tirou uma faca da cintura, aproximou-se mais de mim e disse:
        - Cortarei uma veia de seu pescoo, morrer rpido por hemorragia, pensaro que
foi devido aos machucados.
        Entendi, pois assim ele no seria acusado.
        - Agradeo, meu amigo, valeu, fico lhe devendo esta. Desde garotos tnhamos este
costume: os favores feitos um ao outro, dizamos que ficvamos devendo, e costumvamos
pagar.
        Marcelo cortou rpido a veia do meu pescoo e o sangue esguichou. Vi, ainda, ele
limpar a faca na minha camisa, num pedao que, nem sei como, ficara limpo. Saiu e fechou
a porta.
        Fui ficando tonto, perdi os sentidos, acordei e senti-me confuso. Sentia dores, mal-
estar, tontura, parecendo que estava dopado. Pensei aflito: "Algo no deve ter dado certo,
Marcelo deve ter errado no corte. Ficou com d e acabei por no morrer."
        A porta se abriu e entraram dois policiais me ofendendo; foram pegar-me para mais
uma sesso de tortura.
        - Est morto! O cara morreu! - exclamou um deles.
        - Ser? - disse o outro - Morto?
        - Est morto sim. Que pena, queria tanto tortur-lo. Soltaram-me, ca e me chutaram
para um canto. "Esto achando que estou morto, devo estar pssimo" - pensei.
        Tentei mexer-me, mas no consegui. Fiquei ali, saram e deixaram a porta aberta.
Logo entraram outros dois homens, que me pegaram e levaram para uma urna funerria.
Era um caixo simples, limparam meu rosto e me vestiram com outras roupas. Escutei:
        - Como a famlia dele foi avisada e disseram que no querem ver o defunto, ser
enterrado como indigente.
        Logo o levaro ao cemitrio.
        "Deve haver algum engano" - pensei. - "No morri, mas eles pensam que sim. No
consigo me mexer e estou frio como gelo. Tenho muitas dores, e morto no deve sentir
dores."
        O fato  que fecharam o caixo, levaram-me e me enterraram. Mas continuei
sentindo-me vivo. Ali estava em completa escurido, sentindo fome, frio, sede e muitas
dores. No sei quanto tempo fiquei ali naquele horror, que para mim pareciam sculos. De
repente, senti um puxo e sa. Que alvio!

(- No deve ter sido um socorrista que desligara Vandi do corpo morto, porque, se fosse, teria
tentado orient-lo. Alguns desencarnados que vagam, ou at certos moradores do Umbral,
costumam fazer algo de bom como o que aconteceu com o nosso personagem. Certamente eles
auxiliam como sabem. E o Bem que comea a despertar neles. (N.A.E.)

         O ar fresco bateu no meu rosto.
         Enxergar novamente foi magnfico. Vi que estava num cemitrio. -Vire-se, agora! -
ouvi algum dizer.
         Vi um homem indo embora sem falar nada. Compreendi que fora ele quem me tirou
dali, e nem esperou que agradecesse. Sentei no cho e analisei a situao.
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

        "A coisa no est boa. Disseram que morri, enterraram-me, fiquei embaixo da terra
e, se no morri na priso, devo ter morrido depois de enterrado."
        Estava muito machucado e descalo. Sentia muitas dores que no passavam em
momento algum. Fiquei pelo cemitrio uns dias, sabia que foram dias porque clareava e
escurecia.
        Resolvi ento voltar  favela. Com muitas dificuldades cheguei e fui para o barraco
de Bernadete. No havia ningum e resolvi esperar. Ben, assim a chamvamos, era minha
amante, uma moa bonita e ambiciosa. Do meu modo, gostei dela.
        Ela regressou ao barraco acompanhada por um dos meus ex-colegas do bando.
        No me viram, passaram perto de mim e no me notaram. Tive ento a certeza de
que havia morrido. Conversaram.
        - Ben, o chefe mandou lhe dizer que  para voc enganar o Marcelo e fazer com
que ele seja um informante nosso.
        - Marcelo  honesto, Vandi sempre me dizia isto - respondeu Ben. - Ele veio aqui
em casa s em considerao ao amigo, para ver se eu estava precisando de ajuda.
        - Voc diz a ele que precisa de companhia etc. Enrola o cara e faz com que ele
trabalhe para ns.
        Terminada a conversa, o homem saiu e Ben ficou sozinha mas por pouco tempo.
Bateram  porta, era Marcelo.
        - Oi, Ben! Como vai?
        - Triste, amigo, bem triste. Sinto tanta falta de Vandi. Entra, fica um pouco comigo,
fazendo-me companhia.
        Triste, percebi o tanto que Ben era fingida. No sentia falta nenhuma de mim. Mas
isso no me importou, pois sabia que no era boa coisa, era tal corno eu. Mas Marcelo
estava preocupado com ela, acreditava no que Ben lhe dizia. Foi procur-la porque sentia
remorso por ter me matado. Porm, eu no via nele meu assassino, mas sim algum que me
fizera um grande favor. E estava lhe devendo esse favor, embora no me cobrasse. Vi o
perigo que ele corria; se entrasse para o bando, era como ele mesmo tinha falado h tempos.
O sujeito ficava perdido, ou era preso, ou morria em brigas entre o prprio bando ou em
guerras entre os bandos rivais.  um caminho sem volta, em que s se libertava com a
morte. E, assim mesmo, muitos desencarnados continuavam no bando seguindo os
encarnados.
        Resolvi ajud-lo, ou melhor, queria, mas como? Sa chateado do barraco e comecei
a andar pela favela. Foi a que vi o Terreiro. Conhecia bem o Terreiro, todos na favela
sabiam dele.
        Muitas vezes os membros do bando iam at l para receber a bno dos santos.
Fiquei por muito tempo parado na frente do Terreiro. Os encarnados iam chegando para
mais um dos trabalhos. At que criei coragem e bati  porta."

(- 0 local a que Vandi se referia, era um Terreiro onde se misturava Umbanda e Candombl.
Atendia a todos, inclusive os fora da lei, por dois motivos: por medo, e porque no se deve negar
ajuda a ningum. Poderiam, tambm, sempre ter uma oportunidade de orient-los. Quanto a Vandi
bater  porta, fez isso mesmo, pois teve medo de entrar sem ser convidado. Ao bater, foi ouvido
pelos trabalhadores desencarnados que l estavam, tal qual como ocorre com os encarnados.
(N.A.E.)
Aconteceu                                                        pelo esprito de Antonio Carlos
                                   Vera Lcia M. de Carvalho

        - Que voc quer? - indagou um senhor que atendeu. -Acho que estou precisando de
ajuda,  isto, necessito de auxlio.
        O senhor olhou-me bem, viu que estava muito machucado e indagou:
        - Polcia ou bandidos?
        Certamente queria saber quem foi que me levou ao mundo dos desencarnados e
quem havia me machucado tanto. Embora a resposta no fosse interceder no socorro, foi s
uma curiosidade daquele desencarnado.
        - Polcia, respondi.
        - Entre.
        Acompanhei-o, atravessamos o ptio e ele me colocou numa fila. Na fila,
perguntaram-me por trs vezes o porqu de eu estar to machucado, e eu repetia resumindo
minha histria.
        Alguns encarnados fizeram uma roda, estavam de p, vestiam-se de branco. Ns
que estvamos na fila, amos chegando perto desses encarnados, mdiuns, e por eles
falvamos incorporados, recebamos orientao e cura. Na minha vez, nem precisei falar
nada, o desencarnado que estava incorporado numa mdium me disse:
        - Machucaram-no bastante. Voc sabe que desencarnou?
        Afirmei com a cabea.
        - Vamos cur-lo. Pea ajuda a Deus, nosso Pai; pea a Ele sua cura.
        Pedi com sinceridade, porque sentia muitas dores, fraqueza e frio. Meus ferimentos
foram fechando e, em poucos minutos, fiquei como antes de ser preso. Sentia-me bem.
        Obrigado, meu Deus! - exclamei comovido. - Muito obrigado a todos os senhores.
        Quis pedir algo mais, mas no tive coragem. Mas o desencarnado que era enorme,
tinha mais de dois metros de altura, disse-me:
        - Quer pedir algo mais?
        - Posso? perguntei encabulado.
         -Sim.

( - o Esprito era alto, porque era assim quando encarnado, ou porque, tendo vontade, modificou-se
para ter essa altura.

        - Devo um favor a um amigo. Ele foi bom comigo, ajudou-me e agora vejo que lhe
prepararam uma armadilha. Quero ajud-lo, mas no sei como.
        - Qual  seu nome? - perguntou o grandalho.
        - Me chamam de Vandi.
        - Um favor por outro favor  justo. Tambm agimos assim. Ajudo voc, mas ter
que ficar um ms trabalhando aqui.
        Um ms pareceu-me muito, no me agradou a proposta. Mas, se era para tentar
ajudar Marcelo, valeria a pena.
        - No sou preguioso - respondi. - Mas no sei fazer nada do que se faz por aqui.
        - Aprende - respondeu-me.
        - Aceito!
        O desencarnado que conversava comigo, chamou um outro, que veio rpido; era um
negrinho risonho, esperto, e disse-lhe apontando para mim.
        - Trigo, voc vai ajudar o Vandi aqui a fazer um trabalho, depois ele vem trabalhar
conosco como aprendiz por um ms. Ficar sob sua responsabilidade.
        Trigo pegou-me pela mo, sa de perto do mdium e fui com ele para outra sala.
Aconteceu                                                       pelo esprito de Antonio Carlos
                                  Vera Lcia M. de Carvalho

       - Vandi - disse ele -, coloque este par de tnis, no  bom que continue descalo
       Achei timo, estava incomodado sem calado.

(- As roupas so plasmadas, e assim tambm os calados. (N.A.E.)

        - Por que o chamam de Trigo? - indaguei.
        - Apelido. No gosto do meu nome, gosto de Trigo. Como o mentor daqui disse,
com o trigo  que se faz o po que alimenta. Agora, amigo, voc deve me contar tudo, para
que eu possa ajud-lo.
        Contei tudo.
        - Vamos at Marcelo e verei como fazer para alert-lo. Fomos at o barraco de
Marcelo. Ele estava sozinho, porque sua me havia sado. Continuava solteiro e morando
com ela. Pensava em Ben.
        - Que sorte! - disse Trigo. - o "cara"  mdium. Com minha ajuda, voc poder
tornar-se visvel a ele.

( - Esse Esprito sabia como ativar a mediunidade. Usou da sua fora mental, para interferir no
campo mental do encarnado e, com isso, fazer com que tivesse maior vidncia espiritual e, assim,
conseguisse ver o desencarnado. (N.A.E.)

        - Ele vai me ver? Mas o coitado ir levar um susto. Todos tm medo de ver esprito.
        - O susto no lhe far mal, ele  forte. Depois ser o impacto que o levar a
acreditar. Quando voc notar que ele o est vendo, aproveite e diga logo o que quer.
        Trigo colocou as mos sobre Marcelo, fazendo movimentos de cima para baixo e, s
vezes, as movia em crculo .
        Fiquei como Trigo me recomendara, na frente de Marcelo, e ele, logo depois de
Trigo ter acabado com seu estranho ritual, viu-me e ficou, como eu previra, assustadssimo.
        - Ai Jesus! - exclamou ele, com medo. -  voc mesmo Vandi? Mas voc morreu!
Quero que saiba que no estou lhe roubando a mulher, eu...

(- Esse Esprito pde fazer isso atravs da mediunidade de Marcelo. Consiste num processo no
muito usado entre os bons e estudiosos. Foi um recurso que o desencarnado usou, porque sabia
como fazer. No so muitos os que tm essa tcnica. (N.A.E.)

        - Marcelo, meu amigo! - disse calmo para no aterroriz-lo mais ainda e para ele
saber que eu vinha em Paz.
        Ben no me interessa, ela no  boa pessoa. Morri e sei disso. Ns temos alma,
meu caro, que no morre e estou vivendo de outra forma. Voc me fez um favor, fiquei
devendo e vim para lhe pagar. Ben  do bando e est a mando do chefe, preparando-lhe
uma armadilha. Eles querem voc como informante. Ela far tudo para seduzi-lo e depois o
convencer a trabalhar para eles. Voc h tempo me deu um conselho que infelizmente no
segui e voc sabe bem o que aconteceu comigo. Agora, lembro a voc.
        No entre nessa. No  bom.  um triste caminho sem volta. Cuide-se, amigo.
Adeus.
        Fui sumindo. Marcelo ficou parado, no conseguia sair do lugar e tremia de medo.
Trigo colocou as mos de novo sobre Marcelo e fez como antes, isto para que ele no visse
mais desencarnados e voltasse ao normal.
Aconteceu                                                   pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

         Fora ativada a sua vidncia s para este fim, para ver-me. Meu amigo comeou a
pensar no que ouviu de mim.
         - Obrigado, Trigo. Paguei o favor que devia a Marcelo, ele  boa pessoa. Agora
cabe a ele aceitar ou no meus conselhos.
         - Engraado, dever favor a algum que matou seu corpo - disse Trigo.
         - Na circunstncia em que foi,  favor sim.
         S mais tarde compreendi que tinha errado em pedir que ele me matasse. Como
tambm Marcelo errara por ter me matado, embora seu ato tenha sido sem dio, e sim por
amizade.
         No se deve fazer isso. A desencarnao deve seguir seu curso natural e ningum
deve abreviar a vida fsica.
         Marcelo aceitou meus conselhos, a viso alertou-o. Evitou Ben e, logo que foi
possvel, ele e a me mudaram-se da favela.
         Como prometi, voltei ao Terreiro, para aprender a trabalhar. No comeo achei
difcil. Mas acostumei-me logo. Atendia aos desencarnados que ali iam em busca de ajuda e
os levava para as filas. Alimentava alguns que estavam dormindo. Nesse local, havia uma
construo no Plano Espiritual, um abrigo para desencarnados. Ali eram acolhidos
desencarnados que sofriam, e outros que dormiam. Alguns dos alimentos, na maioria das
vezes sopa e sucos, eram feitos ali mesmo, ou recebidos de um grupo que vinha entreg-los
uma vez por semana.
         Mais tarde vim a saber que era a Colnia daquele espao espiritual que os enviava.
         Um ms passou rpido. Trigo veio at mim.
         - Vandi, acabou seu prazo. Cumpriu direitinho o combinado.
         Fiquei pensando no que ia fazer quando sasse daquele lugar. Ir embora para onde?
Estava gostando dali, pois naquele ms senti-me muito bem e feliz. Falei quele que fora
responsvel por mim.
         - Trigo, ser que no posso ficar mais aqui? Gostei de trabalhar.
         - Que bom ouvir isto. Claro que pode.
         Entendi o porqu de os mentores daquele grupo fazerem a troca que fizeram
comigo: um favor por um ms de trabalho. Muitos como eu, aps o perodo de trabalho,
passavam a amar aquele lugar e a fazer o Bem. Dava-nos uma alegria que desconhecamos.
Assim mudava em muitos a forma de pensar e agir. Sou muito grato a todos esses
trabalhadores pelo carinho com que me trataram, e por terem me ensinado a fazer o Bem.
         Assim fiquei por ali dois anos. Escutando bons conselhos, tive remorso por ter
assassinado aquele policial.
         Com ajuda de Trigo fomos procur-lo, encontrando-o a vagar no seu ex-lar terreno,
e o levamos para o Terreiro, onde o ajudamos e orientamos. Pedi-lhe perdo e ele me
perdoou, preferindo ser levado para a Colnia. Embora eu fosse o assassino e ele a vtima,
muitos fatores so levados em conta para o nosso socorro. Eu pedi ajuda, busquei; ele no,
revoltou-se. Fiquei muito feliz em ser perdoado e ter ajudado esse desencarnado.
         Andando pela favela, vi com tristeza muitos jovens e crianas se drogando e
entrando para os bandos.
         Sonhava em fazer algo de bom a eles. Mas tambm vagavam por ali muitos
desencarnados ruins e trevosos.
         Formavam outros bandos que, por afinidade, se ligavam aos encarnados. Estes tudo
faziam para incentivar os encarnados ao mau caminho. E os encarnados ouvem o que
querem ouvir, ligam-se aos que com eles se afinam.
Aconteceu                                                         pelo esprito de Antonio Carlos
                                   Vera Lcia M. de Carvalho

        Comecei a pensar srio em trabalhar, ajudando essas crianas. O encarnado alto que
me curou, era um dos mentores daquele local. Era muito bom e, quando ficou sabendo dos
meus sonhos, chamou-me para uma conversa.
        - Ento, Vandi, voc est querendo ajudar os encarnados?
        - Estou querendo, sim senhor, principalmente as crianas e os jovens. Queria
orient-los para que no seguissem o mau caminho. Mas no sei como.
        - Quando chegou aqui no sabia fazer nada, lembra? Aprendeu. Para fazer o que
quer, tem que aprender.
        Aqui no temos como ensin-lo. Mas os desencarnados que aqui vm trazer
alimentos e remdios, moram em locais onde h escolas que ensinam. Se voc quiser  s
pedir e eles levam voc.
        - Agradeo, mas preciso pensar.
        Por dias fiquei a pensar e a me indagar: "Ser que vou?" Resolvi que sim.
        De fato, pedi e eles me levaram para a Colnia. Encantei-me com a beleza da
Cidade Espiritual. Fui estudar e, numa excurso  Casa do Escritor, conheci Antnio
Carlos.

(- Colnia belssima e to bem descrita no livro A Casa Do Escritor, pela jovem talentosa Patrcia.
(N.A.E.)

        Aps uma belssima palestra com que este escritor nos agraciou, saram todos; eu,
porm, fiquei.
        - Caro jovem, no vai sair? - indagou-me Antnio Carlos.
        - Vou sim,  que o admiro. O senhor deve ter sido muito bom quando encarnado,
no ? No deve ter cometido erros.
        Antnio Carlos sorriu.
        - Poucos espritos terrenos no tiveram erros. No me julgue melhor do que voc.
Errei muito. Errei, sofri, aprendi e tenho feito o propsito firme de no errar mais.
        - Pensei, ao ouvi-lo, que estava isento de erros.
        - Por que teve essa impresso? - Antnio Carlos indagou.
        - Fala com tanto amor, e me pareceu que era um servo de Jesus! Trabalhava em
nome de Jesus?
        - Vandi, bem poucos so dignos de trabalhar em nome de Jesus. Trabalham todos os
que tm boa vontade por misericrdia. Sim, trabalho em nome de Jesus e alegro-me muito
com isto. Aprendo a Amar e este Amor tem sido a seta no meu caminho.
        - s vezes penso que estou sendo ousado querendo fazer o Bem. Errei tanto...
        - Como fico feliz em ver uma pessoa mudar para melhor - falou Antnio Carlos
sorrindo. - Voc errou, e certamente no quer mais errar. Quer servir e conseqentemente
deixar de ser servido. Porque, Vandi, todos ns j erramos, o importante  tirar lies dos
erros e querer acertar. Ter vontade de servir, deixando o comodismo de querer ser servido.
Porque  nosso dever fazer o Bem,  o dever de todos. E, para faz-lo com melhor proveito,
 melhor aprender. Muitos preferem por comodismo, egosmo, que outros faam o que lhes
cabe. Isso acontece com encarnados e desencarnados. Muitos ociosos preferem ser
mendigos da ajuda de outros, mendigos espirituais, de favores de encarnados e de
desencarnados. Esquecem que no devem s pedir, mas tambm contribuir, ajudar, e passar
de servido a servidor. Ao v-lo todo entusiasmado, aprendendo para servir, fico alegre.
Porque sei com antecedncia que ser mais um servo de Jesus a auxiliar a muitos.
Aconteceu                                                    pelo esprito de Antonio Carlos
                                Vera Lcia M. de Carvalho

        - Eu, servo de Jesus?! - espantei-me.
        - Sim - continuou elucidando-me Antnio Carlos. - A partir do momento que deixou
de ser servido e passou a servir ao Bem,  um servo, e certamente muito amado, de Jesus.
No importam seus erros do passado, e sim o presente, que constri seu futuro. Lembre,
Vandi, que o que aprender servindo, ser um tesouro que a traa no ri.
        - Logo estarei apto a voltar  favela e trabalhar com crianas e jovens encarnados,
motivando-os a seguir o caminho do Bem. No ser fcil minha tarefa. Mas estarei sempre
alegre por ter tido oportunidade de reparar meus erros com trabalho edificante.
        - Oportunidades todos temos, basta que aproveitemos! Desejo-lhe xito!
        Antnio Carlos sorriu, dando-me confiana. Sim, oportunidades todos temos, e que
vitria alcanamos quando entendemos e deixamos de ser servidos para servir o Bem.
        Mas antes de se despedir de mim, Antnio Carlos disse-me:
        - Vandi, voc deve ter uma histria interessante. Talvez, se escrevesse aos
encarnados, pudesse servir de exemplo e incentivo a todos. Se voc mudou, todos podem
mudar para melhor e fazer o Bem, porque e agora o momento.
        - Eu? Ditar a encarnados! Por meio de um mdium?
        - Sim.
        - Acho que no d certo, no tenho jeito - respondi.
        - Se voc escrever e me der, ditarei aos encarnados.
        E ento fiz, foi uma redao rpida que entreguei ao escritor, para que ele ditasse
aos seus leitores.
        Assim, eu, Antnio Carlos, conheci Vandi e vim a ter conhecimento de sua histria.
Transcrevo com carinho, porque ACONTECEU!




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Entre nessa corrente!
